Pelo gozo

alvinbooth

Da série “Osmosis”, de Alvin Booth

Entrei no vagão cheio e me encostei na primeira barra que vi pela frente. Do meu lado, um casal de trelelê. Ao menos, assim entendi. Ele, mais alto, com os braços levantados se segurando na barra de cima. Ela, baixinha assim que nem eu, meio que encostada na outra barra vertical. Ou não. Pensando melhor, acho que ela se equilibrava nas duas pernas mesmo, pra não ficar muito longe dele.

E nesse meu voyeurismo diário, fiquei por ali, fingindo devaneio, mas ligada na conversa. Não era nada. Era de futebol, algo assim. Mas, não importava. Era o tom. Era a voz. Era o jogo de corpo. Era o olhar, o sorriso, o jeito como ele ia pra frente e pra trás, seguindo o meneio do trem enquanto falava com ela. E o jeito como ela levantava os ombros e olhava pra ele, daquele, aquecido.

E era tanto clima, tanta vontade de se tocar, tantas desculpas pra isso, pro roçar no braço, pras mãos no abdômen do outro pra não cair, e tantos olhares e línguas molhando os lábios, secos decerto, e eu ligada, sentindo eu mesma coisas minhas, doidinha com aquilo lá.

Que situação mais saborosa! Se pra mim, imagina pra eles.  Até que ficou assim:

“Você nunca me viu jogar…”, ele disse.
“Você nunca me convidou!”, disse ela.
“Você iria?”
E ela, sorrindo:
“Você nunca me convidou quando a gente namorava. Naquela época, valia mais!”

E ele riu de volta e reforçou o convite e eu quase vi um roçar de dedos na pele. Ou quis ver. Ou fiz uma prece. Pode ser. E me afastei, entendendo que aquilo era um prenúncio de um revival. Não um revival sentimental. Mas, o do outro amor. O da pica. O da buceta. Aquele que não passa, o que fica, aquele que dizem.

E sorri eu internamente, fantasiando que eles iriam sair dali e se pegar, que aquele clima não podia ficar só no vai-e-vem do trem, e que ia ser delicioso, porque já estava sendo.

Fiquei pensando se eles se encontraram por acaso na estação ou se marcaram pelo whatsapp. Se trabalhavam juntos ou perto ou se tinham desviado o caminho apenas pra viver a coincidência. Pensando se seria a primeira vez depois do rompimento.

Que eles estavam conversando também com doçura e amizade, o que, pra mim, indicava uma cumplicidade sem mágoas, sem necessidade de DRs, só aquilo lá mesmo. Um beijo, um sarro, uma trepada. Uma vontade. Ou não. Ou aquilo mesmo era que bastava: o desejo não realizado no vagão do metrô, que também pode ser bom, que também dá prazer, de um jeito assim, que quase doi. Mas, que doi bom. Na quentura do meio das pernas.

E que iriam continuar no dia seguinte.

E fiquei pensando naquela sábia que acumula amores, e que acumular amores e desejos nos oferece esses momentos assim, de pele pura no metrô, provocando quem assiste.

Que lembranças, que historias, que paixões podem ser relembradas, revividas, por apenas. Por elas. Pelo gozo.

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