Tá tendo beijo

oafetoteafetaRecentemente assistimos um grande levante da chamada “família tradicional brasileira”, que rechaçou e propôs boicote à nova novela das 9 da rede Globo, Babilônia, porque,  pasmem, duas senhoras, interpretadas por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, casadas na trama novelística, se beijaram em horário nobre. Sim, um beijo, apenas um beijo, de afeto, amor e beleza, docemente embalado pelo som de Maria Bethânia.

Digna cena de arrancar suspiros românticos, de inspirar amantes, de exaltar o amor. Mas não. A cena provocou a ira e o ódio desgovernado daqueles que acreditam que pessoas homoafetivas não são pessoas dignas de viver livremente em sociedade, devendo ser escondidas debaixo do tapete. Tirem as crianças da sala, tapem os olhos, finjam que não estão vendo, saiam correndo, que horror: o amor entre pessoas do mesmo sexo está passando sem cortinas.  O nome disso é homofobia. E, não, você não está pensando nas crianças. Garanto-lhe, por experiência própria, que as crianças convivem bem com todas as formas de amor, como já contei aqui. O preconceito e a estupidez são coisas suas mesmo, as crianças não tem nada a ver com isso.

beijo-babilonia

o beijo

No levante desenfreado, o lesbianismo foi equiparado a coisas como assassinatos, intrigas e criminalidade. A “família de bem”, em nome da moral e dos bons costumes, que de bom não tem nada, decidiu que já era demais. Até nota de repúdio de Deputados evangélicos teve. Correntes de whatsApp, mensagens mil, condenações cruéis às duas senhoras “do mal” e a emissora responsável por tal disparate. E, olha, nem tinha sido a primeira vez que essas criaturas assistiram beijo gay na telinha.

A rede Globo, em espantosa mudança de seus roteiros, passou a incluir casais gays nas novelas. Já tinha sido a Giovanna Antoneli e a Tainá Muller como par lésbico, o Zé Mayer com o Kleber Toledo como par gay, já tinha acontecido beijo homo no plim plim. Mas duas senhoras na casa dos 80 anos foi demais para o moralismo condenatório. Porque né? Além do “pecado” da homossexualidade, duas senhoras não podem ser sexualmente ativas, não podem desejar e serem desejadas. Delas se espera apenas o papel de avó no fogão, e a sexualidade morta de algum dia. Mais moralismos que atormentam a sociedade, que castram alegrias e impõem barreiras a algo tão valioso e tão inofensivo quanto a felicidade e satisfação sexual de cada umx.

Essa sociedade acostumada a violências das mais diversas não pode conviver com o amor entre mulheres? Porque, pergunto-me, porque é tão difícil que esse amor seja aceito e recebido com alegria? Porque traçar regras para a vida afetiva e sexual alheia, porque machucar alguém que não faz mal a você a não ser….amar? Não, também não me fale em Deus. Nem na Bíblia. Já é hora dos homofóbicos pararem de mascarar seus preconceitos em nome de Deus. Como já assistimos de forma muito bem fundamentada no filme “Orações para Bobby”, as passagens da Bíblia devem ser revistas ao contexto atual, e não interpretadas literalmente. Ou os religiosos bíblicos pregam que devemos matar as pessoas adúlteras e as crianças que desobedecem os pais?

Ademais, seu Deus é apenas um Deus dentre tantos outros possíveis. Ou até Deus nenhum. Deveria uma sociedade laica ter uma frente Parlamentar evangélica e tentar impor suas crenças religiosas a todas as demais pessoas que tem crenças diferentes?  Se sim, pergunto-me de novo, é possível um Deus que prega exatamente o amor, ser contra uma família homoafetiva, ou qualquer forma de amor entre duas pessoas? Se seu Deus é contra, ele não me representa, e nem a milhões de pessoas que vivem na mesma sociedade que a sua.

Aí temos a tendência de falar em tolerância. Tolere o diferente. O ideal para mim não seria nem tolerância, seria respeito e aceitação de que as pessoas são diferentes e livres em suas individualidades, sexualidades e vontades. Que a liberdade do outro não lhe diz respeito. Que seu direito de opinar socialmente não inclui o que as pessoas fazem com seus corpos e com suas sexualidades. Mas tolerância já seria um bom começo.

Pois sim, está tendo beijo. Está tendo beijo todos os dias, e terão beijos e mais beijos de pessoas que se amam. Mulheres que amam mulheres, homens que amam homens. Homens que amam mulheres. Mulheres que amam homens, sejam elas e eles cis ou trans. Nosso beijo lésbico não será mais escondido, não será desprezado, não será menos relevante e nem motivo de vergonha. Nosso beijo lésbico é um beijo como outro qualquer, um beijo que estará cada dia mais presente, mais latente e mais corajoso. Um beijo que em breve ocupará sem medo as ruas, os bares, as casas, as famílias e terá forças para vencer o preconceito. Vem beijar também, que a vida é bem mais bonita com beijo na boca!

beijogay

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *