A transfobia e a morte

Por Marcelo Caetano, Biscate Convidado

Das coisas que mais me assustam na transfobia, para além do medo da humilhação, da vergonha e da violência nos espaços cotidianos, está a morte. Não o medo de ser morto em razão de transfobia (um medo que também existe), mas o medo de morrer e não ter minha identidade de gênero respeitada.

Hoje, é possível às pessoas trans a retificação de seus registros civis, não sem antes dar entrada em um processo judicial, que exige laudos e documentos e fotos e comprovações de toda a sorte de que há razão para que o Estado reconheça nossa identidade (nossa vontade e autonomia sobre a própria vida, para nos determinarmos da forma que bem entendemos, são só uma coisa a mais; a “justiça” exige provas!). Como se pode ver, é um processo bastante burocrático e não tão simples, o que faz com que diversas pessoas trans demorem anos para conseguir oficializar a mudança, ou mesmo com que não consigam (o acesso à justiça é ainda bastante seletivo).

Sinto pânico toda vez que penso na possibilidade de ter meu corpo enterrado sob uma lápide que afirma que ali morreu alguém que não sou eu. Sei que viramos matéria, que os bichos comem, que somos todos reduzidos a carcaça, mas, daqui de onde vejo, nem na hora da morte somos todos iguais.

O que dirão de mim no meu velório? Qual será a memória que guardarão de mim? Para quem jogarão flores e derramarão lágrimas?

Tem sido sempre uma batalha afirmar minha identidade, mas tenho feito isso todos os dias, porque é o único jeito de não sucumbir à violência de viver uma vida que não é aquela que desejo viver. Depois de morto, já não poderei mais. Não poderei corrigir os pronomes errados; brigar com os médicos que insistem em não respeitar o nome que me identifica. Não poderei mais responder aos gritos e acusações daqueles que tentam me deslegitimar. Sobrará apenas aquilo que quiserem que sobre.

Para mim, essa questão é uma das mais profundas a respeito da transfobia, pois mexe com algo bastante delicado em nossa sociedade. É aqui, também, que se pode afirmar que a transfobia tem contornos bastante específicos, que a tornam uma violência distinta da homofobia. Mesmo na hora da morte, quando não há mais nada, o nome (e o gênero que costuma vir marcado com ele) ainda continua a existir.

Sei bem que a morte é ritualizada muito mais para os que ficam do que para os que vão, mas acho que todas as pessoas têm o direito a um ritual que não as humilhe ou violente. Por que seria diferente para as pessoas trans?

Não sei quem há de chorar no meu velório, mas sei que não quero ver o luto por alguém que já não sou. A lembrança de um nome que não me diz não é a minha lembrança. Pode parecer duro, mas a verdade está posta: a luta contra a transfobia não é só a batalha por uma vida digna, pelo reconhecimento como ser humano; é também a justa luta por uma morte que não nos mate mais uma vez.

984270_10153061652847351_580528854801347227_nMarcelo Caetano, protótipo de poeta, come as palavras mais do que as escreve. sonha em largar tudo pra viver de arte. nas horas vagas, vira alquimista da cozinha. apaixonado por música, não perde um bom samba e se garante no rebolado.

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