Um conto para o não-dito (ou ainda: a linguagem do desejo)

dito

Ela: – Um tal cara ligou às quatro e meia da manhã desses dias. Não atendi porque não vi. Nada demais. E mesmo que visse. Provavelmente não. Ele insiste, depois de termos entre bebedeiras e vontades, que não é isso o que foi. “Isso o quê?” – dá vontade. De perguntar. Vontade de mim? Como a que te faz ligar sempre que bebe? Como a que se infiltra nas ligações não atendidas do meu celular vez ou outra?

Ele: – Ah, eu sei. É só porque ela ri comigo. Se sente. A vontade. Mas só de ligar. E de falar sério. Só falar besteira. De apenas escutar em silêncio minhas baboseiras todas. E rir de novo. E sentir vontade de novo. De comentar o filme. O trânsito ruim. Do seu dia. Da noite de ontem. De escutar uma música e achar minha cara. Lembrar de se lembrar, se por acaso a gente se encontrar, de me contar. De tal artista. A tal piada. Os fatos. Não, eu não sou o tal. Não precisam me lembrar. É, eu sei. Que ela quer ser “apenas” minha amiga.

Ela:- Eu escolheria um nome menos comum, principalmente porque ele fala prazer em te conhecer bem baixinho. Também sobre deuses e mitologia. Observa fixamente tela e olhos. Anda como um felino, languidamente e, no entanto, é surpreendentemente estável e forte. Seu parentesco com os gatos de rua, é que nada parece que vai assustá-lo ou tirar seu equilíbrio.

Ele:- Você nunca foi naquele bar. Era meu território e eu me achava em segurança. Então, é claro que eu estava desarmado. E entenda também, quase dois meses que eu não te avistava, estava me sentindo quase curado, quase não doía mais. E aí quase. Quase acreditei que manteria firme a decisão de nunca mais. Mas você saiu de onde eu não te podia, naquela mesa lá longe para beijar um outro. Doeu tanto que eu roubei um microfone e fui berrar minhas dores. Você me olhava e eu me senti tão ridículo ali, tão bêbado, tão de joelhos, tão “sem sentir meus pés no chão” que fui aplaudido de pé quando terminei minha apresentação de desespero. E você foi embora para que eu conseguisse conter as lágrimas e o ódio e a vontade. Aí teve o Sábado. Novamente. Teu olhar firme me acompanhando sem motivo algum. Eu fugindo para procurar pela janela, minha vergonha. Porque eu te queria e te quis tanto. Domingo. Te quero. Ainda. O outro mostra tua mensagem no celular. Depois a tua rouquidão nos nega no viva-voz, se nega para mim, me nega para si mesma.

Ela:- “… E, mesmo assim, estarei sempre pronta para esquecer aqueles que me levaram a um abismo. E mais uma vez amarei. E mais uma vez direi que nunca amei tanto em toda a minha vida.”

Ele: – O grande problema, meu amor, é que as pessoas preferem nossa versão editada. E eu não vou mais desperdiçar uma boa cena apenas para agradar o grande público.

Ela:- Três vezes. Choro escutando o galo cantar. Acordo com sua crueldade e frieza me fazendo doer as têmporas em laranjas e amarelos. Coloco os óculos escuros e tenho que enfrentar a verdade ao voltar para casa. Você nunca.

Ele: – Para sempre, seu.

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