Abuso não será discurso

Foto de Miroslav Tichy

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E foi noite dessas, num restaurante com meus dois filhos, que entabulei uma conversa simpática com uma mulher (porque tudo foi dito na simpatia e no bom humor) que acabou me derrubando ao final: “você só tem meninos, né? Eu também. Três meninos. E ainda quero adotar mais um…”

“Outro menino?”, perguntei, educada.

“Ah, sim. Menina dá muito trabalho. Vejo por aquelas que aparecem batendo no meu portão…” E, se virando para o meu filho de 13 anos, completou: “Por isso, abusa, viu?! Abusa mesmo das meninas porque tá sobrando!”

Nada disse. Saímos de lá, conversei rapidamente com o Mateus sobre o ocorrido, mas, só pensava mesmo naquilo que continua latente, na base de tantos discursos e atos de violência contra mulher que sabemos, presenciamos e vivemos.

Por favor, eu pensei, que venham tempos que meninas não sejam consideradas um fardo. Que os estereótipos de gênero que fundamentam as proibições sobre elas e as permissões a eles caiam.

Que meninas possam buscar amigos, namorados ou flertes sem que isso legitime abuso. Que elas possam fazer isso sem constrangimento, com segurança e bom humor e que sejam recebidas com respeito.

Que a palavra abuso não seja trivializada numa anedota debochada. Que eu sequer precise explicar ao meu filho que a gente não abusa das pessoas, em hipótese alguma, porque essa possibilidade sequer será considerada. Não será parte de um conselho.

Porque ninguém mais será educado a acreditar que algumas pessoas merecem.

Nunca.

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2 ideias sobre “Abuso não será discurso

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