(Não) sendo feminina

desastrada2.1

Tem aquela coisa de ser delicada, ne? ~ Feminina ~. Nunca fui. Especialmente nos gestos. Quer dizer, acho até que correspondo a alguns estereótipos, mas sempre no exagero, na retumbância: um batom vermelho aqui, uma unha roxa acolá, um cabelão cacheado todos os dias…

Mas, gestual contido e fino não esperem de mim. Falo alto, rio alto, piso forte, sou desajeitada e desastrada (“tímida e espalhafatosa…”), torço o pé até de chinelo havaiana parada na fila do banco e ainda quebro copos, derramo bebida na roupa alheia (sem-pre!). E, bom, de vez em quando, cometo gafes.

Daí que quando eu tinha 10 anos minha mãe resolveu me matricular no balé pra ver se eu ficava mais “delicada”. E com minhas coxas grossas tinha eu que me esforçar pra fazer o pliê sem deixar uma roçar na outra e ainda fazer de conta que era magra.

Não fiquei mais de dois anos por lá. Menos pela compleição física e mais por não conseguir dançar em conjunto mesmo. Eu simplesmente não consigo fazer passo marcado, coreografado.

Não sei dançar em bloco.

Mas,  sem querer desistir da dança, sai do balé e fui pro jazz. O desajeitamento não mudou muito, mas com o passo rápido dava pra me embolar no meio da muvuca e enganar. Cheguei a me apresentar na 2a fila. Só no carão. E na coxona. Yes!

Até que um dia…

Dancei. Sai do palco, fui pra trás do cenário, subi numa mesa pra ver melhor a coreô seguinte e… fomos eu, a mesa, o cenário, a minha cara… tudo pro chão! Morri de vergonha. Muita mesmo. Quis morrer. Mas, ao mesmo tempo, me dei conta que eu não tenho jeito. Tipo isso: não sou jeitosa.

Aí, sim, comecei a me saber de verdade.  O impacto disso só percebi bem mais tarde, mas ao menos comecei a me entender melhor…

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

E quando teve aquela entrevista de trabalho amarrei tudo de uma vez. Encontrei uma conhecida na recepção e nos cumprimentamos com entusiasmo.

Na hora da entrevista, a recrutadora me disse, algumas vezes, em tom de reprovação, que eu falo muito alto. E foi tudo ladeira abaixo a partir disso. Falar com vocês que nem me esforcei muito em mudar a impressão. Seria mentira. E, de posse do meu entendimento sobre mim, senti um cansaço enorme.

Porque é isso, né. Temos que falar baixo, não gargalhar, não falar palavrão, não nos embebedar, não arrotar, não peidar… A vida resumida aos “bons modos”, à “classe” e sorrisos doces e simpáticos, de preferência.

E vai ficando pior quando saímos dos trejeitos engraçadinhos e entramos mesmo nas características que fazem com o que seja visto como positivo num homem seja altamente criticado numa mulher. Autoconfiança x arrogância. Firmeza x grosseria. Liderança x centralização. E por aí.

Inclusive, me pergunto, fosse eu um homem cumprimentando de maneira entusiasmada e expansiva um amigo que encontrasse por acaso, seria meu tom de voz um dado percebido? E, se fosse, visto como negativo?

(Pausa prum suspiro)

Falar com vocês que este texto ainda tinha mais coisa e eu cortei pra não virar (mais) textão (ainda). Mas, nem só por isso. Tô aqui me perguntando quantas vezes eu mesma já li textos sobre estereótipos de gênero antes.

E quantos mais ainda lerei pela vida. Tantos, né?!

Às vezes, não sei. Me canso disso tudo e quero só assistir novela. Mas, aí, me lembro que na das nove mulher que gosta de sexo é patologizada e vira “ninfomaníaca”. E depois desvira.

E rio de minha ingenuidade. Tem como ficar alheia? Vamos nessa, então, sendo a chliquenta monotemática!

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2 ideias sobre “(Não) sendo feminina

  1. Ô, Van, como te entendo. Que caixinha apertada essa do “ser feminina”.

    Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão.
    Tudo errado.
    Tudo certo.

  2. Qdo Iara teve aqu, estávamos num bar com umas amigas e um casal veio noa.chamar atenção por causa do volume da voz. Nem gargalhamos, né? ‘

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