Por partos e mulheres livres


Recentemente temos assistido uma grande polêmica envolvendo o parto domiciliar. Casos de partos fora do ambiente hospitalar que tem motivado uma série de debates sobre a liberdade da mulher parir onde bem entender, e como bem entender. Médicxs, juízes, juízas, promotores de justiça, gente da medicina e do direito vem se debatendo para barrar, tolher, regulamentar esse tipo de parto. Para entender até onde a mulher pode ser livre para dispor do seu corpo e da sua gravidez como quiser.
É preciso que se diga que esse é um debate um tanto elitista, pois se resume àqueles casos de partos domiciliares daquelas mulheres e famílias que puderam arcar com o que significa ter um parto domiciliar bem assistido hoje em dia: pagar umx médicx ou uma parteira, uma doula, umx neonatologista para ir em casa. Não estamos falando as mulheres pobres que pariram em casa por falta de opção ou por morarem num lugar inacessível a qualquer Hospital. Dessas não se fala, nem se preocupam os doutos magistrados e médicos. Essas são as invisíveis, excluídas, e não aparecem na mídia vendendo notícia. Estamos falando do parto domiciliar que não é para todas. É para quem tem acesso, muitas vezes, a círculos privilegiados e com dinheiro em estoque para arcar com isso. É para quem pode pagar. Mas, ainda assim: é um direito de quem pode. Como é um direito privilegiado de quem pode pagar um plano de saúde ter seu parto na suíte master do Hospital estrela mais mais. Ou daquelas que pagam um plano de saúde com muito custo e acabam nos protocolos de hospitais que, nem sempre, ou melhor, quase nunca, garantem seus direitos na hora de parir.
Infelizmente, a saúde capitalizada em nosso país como um bem de consumo. Temos o SUS para nos salvar e para continuarmos brigando por um sistema universal de saúde que reverta essa lógica. Mas ainda temos muito chão pela frente. O SUS tem incentivado a criação de casas de parto e a realização de partos naturais e humanizados, mas estamos longe de termos respeito às mulheres na hora de parir nos hospitais públicos. Basta que ver na pesquisa feita pelo Ministério da Saúde para avaliar a Rede Cegonha, seu programa integrado de promoção do parto humanizado, 62% de mulheres não conseguem sequer terem um acompanhante na hora do parto, direito legalmente garantido e que deveria pressuposto básico de todos os partos. Mas não é.
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Queria ressaltar, com todas as ênfases, que esse tipo de parto domiciliar não é a mesma coisa que um parto desassistido. O parto domiciliar é um parto onde existe uma equipe de saúde que atende à mulher, mas uma equipe que foge da lógica medicalizada e centrada no poder biomédico que existe nas instituições de saúde. Uma equipe que vai acolher a mulher no melhor lugar do mundo para que sua cria venha ao mundo: na sua casa. Parto que pode ter todo mundo peladx na banheira, parto com massagem, parto com a avó passando um café na cozinha, parto com respeito ao momento e a hora de parir, parto com música, parto com beijo, parto com amor. Mas, e se der algo errado? Bom, nos partos domiciliares existe sempre um plano B e um hospital de referência para seguir caso algo não saia como o esperado. Porque sempre é possível que algo não saia como o esperado, em hospitais ou em casa. Com ou sem médico. A vida sempre escapa de certezas. Mas o mito de que o parto domiciliar é menos seguro é o que querem vender como certeza.
Não temos estatísticas para evidenciar o número de partos domiciliares com qualquer tipo de intercorrência, mas sabe-se que são muito poucas, pois quando um caso surge, contra-hegemônico, cai o mundo na imprensa e nos fóruns de debates médicos e jurídicos, como assistimos nessas últimas semanas aqui no Distrito Federal. Um único caso. E o que temos do outro lado? Sabemos que a mortalidade materna no Brasil é enorme nos ambientes tão “seguros” dos hospitais. A Pesquisa “Nascer no Brasil” feita pela Fundação Oswaldo Cruz em 2014 trouxe o alarmantes dado de que a mortalidade materna no Brasil atinge o patamar de 69 mulheres a cada 100.000 nascidos vivos. É. Isso tudo. Temos ainda o Relatório da CPI da Mortalidade Materna de 2000 que apurou que 68% da mortalidade materna ocorre durante os partos e que em 98%  dos casos as mortes são evitáveis. Hum. Será que sair de casa e ir parir no Hospital é mais seguro mesmo?
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Mas aí vem algo que aprendi e vivenciei durante um Fórum sobre Parto que participei como debatedora pela Artemis na Associação Médica de Brasília: a mulher não é o foco de preocupação dos médicxs. Dane-se a mulher. O que importa é se o bebê vem ao mundo vivo e saudável. Não importa se a mulher pariu na posição de frango assado, se ela foi cortada sem necessidade por episiotomia ou numa cesárea desnecessária, se rasparam seus pelos pubianos para ficar “mais fácil” e “mais higiênico”, se ela passou horas desconfortável e sem a menor assistência.
O mundo machista acostumou-se a usar o corpo feminino e dele dispor sempre em benefício de outrem. Ou em prol da “família” ou em prol dos desejos do homem ou, ainda, para facilitar o serviço médico. Não é dado à mulher falar, reclamar, argumentar, não querer. “O que importa é a criança que carregas em teu ventre, mulher!. Fica quieta e aguenta”. Aguenta a violência, tão real e tão simbólica, e tão naturalizada na sociedade. Como nos mostra o Dossiê da Parto do Princípio é “normal” as mulheres passarem por violências das mais diversas ao parir, desde físicas até morais. Falas como: “na hora de fazer você não reclamou né? agora fica quieta” são corriqueiras, assim como cortes e invasões desnecessárias e sem o devido consentimento da mulher. Marcas que ficam, e seguem, no corpo e na mente de tantas de nós. Sim, eu também fui vítima de violência obstétrica.

Sabemos que o Brasil é campeão de cesarianas. Na rede pública vamos para um número parecido com 52% desse tipo de parto, enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15%. Na rede privada, pasmem, o índice sobe para 83%, podendo até chegar a mais de 90% em algumas maternidades. A cesárea, obviamente, pode salvar vidas. Como é bom poder ter esse recurso. Mas, como toda cirurgia, devia ser usada para casos de necessidade. Tem que ter indicação correta. o que não acontece, por certo, nos 80% dos casos de cesárea de uma maternidade.

Ademais, se formos ainda olhar pelo “bem do bebê”, as cesarianas fora de hora podem acarretar males bem preocupantes para os bebês, como diz Melânia Amorim: “diversos estudos apontam que taxas de cesariana superiores a 15%-20% não resultam em redução das complicações e da mortalidade materna e neonatal e, ao contrário, podem estar associadas a resultados prejudiciais tanto para a mãe como para o concepto”.

Mas não, é o parto domiciliar, com sua liberdade e não enquadramento no poder médico e machista que querem tolher e problematizar. É o parto da mulher protagonista que querem apagar com falsos medos, é o parto onde a mulher tem voz e que tem vez que querem calar e abafar em uma dita normatividade científica e biomédica que de dados científicos não tem nada. É o parto da mulher que não se curva, que não se deixa deitar como é melhor para o outro, que não fica quieta e que assume as rédeas de seu corpo que querem culpar e colocar cabresto.

O que tem nesse falso problema é um monte de medo da mulher fora da curva, da mulher que teve seu parto como quis, que deu uma banana para os senhores de jaleco branco e foi ter seu filho com outra mulher que lhe afagou os cabelos e lhe olhou nos olhos sem bisturi nem injeção em punho. Se querem culpabilizar a mulher pelo parto domiciliar que resultou em qualquer dano para o bebê, que culpabilizem também a mulher que escolheu uma cesárea eletiva que resultou em danos para o bebê. Mas de preferência que não culpabilizem ninguém. Que as mulheres possam dispor sobre seus corpos como quiserem. E que tenham suporte de saúde, de direito, e informações claras para decidir.

feminista

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3 ideias sobre “Por partos e mulheres livres

  1. Em Belo Horizonte o Sofia Feldman (SUS) está oferecendo parto domiciliar. Claro que para gestantes de baixo risco e dentro de certos parâmetros. Eu, por exemplo, que tenho uma cesárea prévia, não sou aceita no programa – mas consigo uma equipe domiciliar ótima se tiver grana pra isso.

    Além do machismo reinante no mundo, tem a questão do ganho financeiro, não é mesmo? Médicos gastam vinte minutos para fazerem uma cirurgia cesárea, podem agendar de acordo com as próprias necessidades e hospitais ganham com os demais profissionais (anestesista, material de cirurgia, etc). É uma indústria bem lucrativa.

    Já o parto como deveria ser – bem, ele é de baixo custo para todxs. Porque o que mais essa indústria ignora, o que mais esses médicos ignoram é que o parto É DA MULHER, de mais ninguém. Quem estiver ali da equipe só está tentando ajudar, mais nada. O parto é dela, o corpo é dela e ponto final.

    Ah, sobre a questão dos problemas que podem ocorrer… bem, bebês morrem. Infelizmente. Dentro e fora de nossas barrigas. E mesmo na situação mais protetiva do mundo. É uma dor gigantesca ter que aceitar isso. Então que ninguém, ninguém está livre de poder passar por isso, seja optando por uma cesárea, seja um parto no meio do mato.

    Obrigada pelo texto, querida! Quem passou por uma cesárea desnecessária como eu carregará essa cicatriz na alma pelo resto da vida. Agora gostaria que você escrevesse um texto sobre como essa violência machista atinge nos hospitais as mulheres que sofreram aborto espontâneo. É um outro tema que precisa ser debatido urgentemente!

    • Super concordo flor! esse tema é urgente. esta no projeto de lei para configurar violência obstétrica. temos que tirar esse tema da invisibilidade. escreve comigo!

  2. já trabalhei com arquitetura hospitalar e pra ter uma ideia de como o ambiente é ~seguro~ , em cada visita a gente era orientado a andar de braços cruzados pra evitar encostar nas coisas, não pode ficar se cutucando, lavar as mãos toda hora e lavar a roupa que estava usando. no meu tema de graduação minha ideia inicial era projetar uma casa de parto, mas depois de pesquisar conclui que médico não sabiam mais fazer partos normais, aí achei que a solução poderia vir do ensino e fiz um proj. de hospital universitário -estilo dos ingleses, onde a mulher escolhe na hora e no quarto qual modalidade ela preferir. acho inadmissível que a gestante passe por tanta pressão psicológica pra ser desencorajada a fazer parto normal.

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