Preliminares

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Há sempre muita conversa sobre a importância das preliminares, a forma das preliminares, a duração e natureza das preliminares. Para falar a verdade, se você olhar com cuidado, ninguém sabe mesmo como devem ser preliminares.

Preliminar é aquele jogo antes do jogo principal, em geral um sub-20 meio mambembe para distrair quem chegou cedo no estádio, um jogo de meninos em um campeonato que ninguém sabe direito se é o estadual, se é o nacional ou se nem é nada disso, se é só um amistoso extemporâneo. Perá lá, o telefone…

– Alô? Oi, Silvia!
– Cara, esquece o futebol, você esté escrevendo no Biscate, futebol é no outro site. Aqui é ripa na chulipa e pimba na gorduchinha, para de enrolar!
– Mas estava construindo a metáfora…
– Apaporra, Paulo, metáfora de futebol com sexo já tinha cansado minha mãe, lá na época que o Pelé jogava futebol em vez de falar bobagem!
– Tá, tá, eu paro…

Como eu ia dizendo, preliminar vem do latim limens, limite. “pre”, todo mundo sabe, é antes. Antes do limite, mas que limite? Ora, ainda gastando o latim, num antigo manual de sexo atribuído a Cícero, o grande orador romano escreve: “Ante coitum pre limens sed”, implicando que as preliminares são tudo o que vem antes da penetração. Telefone de novo, segura aí…

– Oi, Rê!
– Latim, Paulo? Latim??
– Ah, eu estava só me divertindo…
– Mas onde o Cícero escreveu essa porra?
– Em lugar nenhum, né? Eu inventei tudo, até a frase. Mas preliminar vem de pre limens mesmo.
– E limens é onde está a paciência da leitora..
– Quantas editoras tem esse site, afinal?
– Quantas forem necessárias para fazer você parar de enrolar e ir direto ao ponto.
– Ou pelo menos ir bem indiretamente ao ponto, para deixar crescer a tensão, né?
– Mas lembra da paciência no limens, rapaz.
– Lembro sim.

A verdadeira natureza das preliminares é alvo de algum debate. Os americanos, que gostam de definições precisas e objetos mensuráveis, costumam situar o início das preliminares de forma um tanto exata no momento em que os parceiros começam a se tocar, mesmo ainda completamente vestidos.

pre

 A ação propriamente dita envolve beijos na boca, abraços, mãos passando pelos corpos, apertões, chupões no pescoço, beijos pelos corpos (quando a roupa começa a sair), mãos roçando bucetas e pirocas. Hmm. Deixa eu perguntar uma coisa aqui…

– Oi Paulo, tudo bom?
– Oi, Lu! Eu estou com uma dúvida. Aqui pode piroca?
– Por que não poderia?
– Sei lá, outro dia deu um problemão lá num grupo de novela…
– Você vê novela?
– Não, mas adoro o grupo de novela. E daí teve uma piroca e um moço ficou muito ofendido.
– Com a piroca?
– Com a palavra.
– Ah. Mas pode. Pode piroca, pode buceta, pode cu, pode o caralho a quatro. Parece que você nem lê o que eu escrevo.
– Era só para confirmar. Vai que está rolando alguma interdição da piroca e eu não sei.
– Pode tudo. Mas um aviso: não use diminutivos. Se você falar em xoxotinha, piupiuzinho e coisas assim, a gente vai rir de você daqui até o fim dos tempos.
– Tá, não se preocupe.

O Consenso de Las Vegas, a lendária reunião dos principais sexólogos americanos ocorrida em meados de 1995, determinou que as preliminares terminam no momento em que o órgão de um dos parceiros é tocado.

Na verdade, o Consenso de Las Vegas determinou um monte de outras coisas, como a ordem em que as partes do corpo devem ser estimuladas, a duração destes estímulos, as variações aceitáveis dependendo do sexo e da orientação sexual de cada um dos parceiros, etc. Se é verdade que as determinações de Las Vegas fizeram um estrondoso sucesso nas redações de revistas femininas e masculinas por todo o Ocidente, se tornando a base de 99% dos artigos sobre sexo publicados desde então, a reação do resto do mundo não foi menos feroz.

Já em 97, um artigo coletivo de um grupo de sexólogos, antropólogos, anarquistas latino-americano denunciava o Consenso como “a base do neo-liberalismo sexual” e “uma bobagem sem tamanho”. Um ano depois, a nota final do Congresso Pan-Europeu de Sexologia criticava o Consenso sem meias palavras. “La merde réductionniste américain”, era o título da nota, cujo tom e vocabulário causou certo espanto na época.

A polêmica sobre a natureza real das preliminares se arrastou por toda primeira década deste século. Com o reducionismo empiricista do Consenso desacreditado, restou-nos tentar uma visão mais abrangente, menos presa a dogmas e a fenômenos diretamente mensuráveis, ainda que talvez menos precisa e mais genérica.

Quando começam as preliminares? Ora, talvez elas comecem no instante em que os parceiros decidem que vai ter sexo. Pode ser um olhar, pode ser um leve toque, pode ser um beijo. Mas também pode ser uma calcinha descendo, um vestido subindo, um zíper se abrindo urgente. Mas talvez elas comecem antes, um roçar de pernas sob a mesa, um dedo subindo distraído pelas costas, uma mordida despretensiosa na orelha. Numa mensagem de texto, num inbox de Facebook.

Quando elas terminam? É uma pergunta difícil. Claro, todo mundo concorda que quando ocorre uma penetração as já preliminares terminaram. Mas quando elas terminaram exatamente? O orgasmo não é parâmetro, pode acontecer a qualquer tempo. O toque em um órgão genital, como queriam os americanos, é um parâmetro insuficiente e claramente errado – a brincadeira pode ir e voltar dos ditos órgãos por um longo tempo. Pior ainda, dissemos ali que quando há penetração, as preliminares terminaram. Mas e se não houver penetração? Quem disse que sexo envolve necessariamente e sempre a penetração? Se alguém chupar o outro até os confins do êxtase, sem penetração, não é sexo? E se alguém se deixar amarrar e vendar e bater e quase morra de gozar no processo, não é sexo? E duas mulheres perdidas com as línguas no outro clitóris, estão fazendo o que, senão sexo?

Um pergunta de outra ordem talvez ajude. Qual a função das preliminares? Excitar-se, excitar o outro? Deixar paus duros e bucetas molhadas, prontos para a ação principal? Divertir os parceiros? Ver quem aguenta mais tempo sem gozar? Tudo isso junto?

As preliminares talvez terminem quando a atenção do jogo se foca decisivamente no orgasmo de um, de outro ou dos dois. A tensão já subiu até o limite (o limite, lembra?) e agora muda natureza da dança. Claro, isso não diz nada sobre duração. Pode durar os cinco ou dez segundos necessários para abrir o zíper e afastar a calcinha. Pode durar horas. Pode até ter por objetivo não deixar o outro gozar.

Mas ainda cabe aqui um epílogo mais antropofágico, por assim dizer. Uma outra forma de ver a natureza mesma do sexo, uma forma menos compartimentada, mais afastada das receitas fáceis das revista femininas. Porque para alguns de nós, parafrasendo Paul Veyne, as preliminares não são uma ciência e não tem muito a esperar das ciências; elas não se explicam e não tem método; melhor ainda, as preliminares, das quais muito se tem falado nesses dois últimos séculos, não existem.

 Ah, claro, o telefone. Como não ia tocar…

– Oi de novo, Rê
– Paulo, meu filho, ninguém tem nem ideia de quem é Paul Veyne…
– Mas povo não lê mais “Como se faz a História” no primeiro ano da faculdade?
– Temo que não.
– Lá quando a gente fez faculdade acho que só os engenheiros escapavam. O quê eles leem agora?
– Vai saber. Acho que alguma apostila ou outra bobagem assim. Com certeza não leem historiadores franceses amigos do Foucault.
– Bem, Biscate também é cultura, quem sabe alguém se anima a ler…
– Você é que sabe…

Por que eu digo isso? Por que eu acho que posso dizer isso? Não estava claro para todo mundo que as preliminares tem função, começo e fim? Pois então. Estava claro que algumas pessoas querem que as preliminares tenham função, começo, meio e fim. Método, técnica e sentido. Se possível, que sejam mensuráveis e que se possa dar nota aos participantes. Mas e se não? E se todo o objetivo do jogo fosse jogar, sem ponto de partida ou porto de chegada?

 O caso aqui é por em dúvida alguns dogmas. O primeiro é a centralidade do orgasmo. Toda a visão de que existem preliminares se baseia na visão anterior, de que o auge e o fim do sexo é o orgasmo. Mas se você toma o orgasmo como passagem e não como ponto de chegada, você muda todo o paradigma. Porque aí você precisa questionar o outro dogma, do sexo como algo separado da vida e delimitado por momentos, ambientes e regras. Algo com método e técnica. Algo além de uma narrativa.

 Pense numa paisagem. Nessa paisagem existem lagos, rios, talvez um braço de mar por vezes calmo, por vezes bravio. Tem montes, montanhas, vulcões. Tem bosques, campos, florestas. Talvez tenha até geleiras e pântanos. E ligando cada acidente desses, caminhos: vias expressas, trilhas difíceis, caminhos batidos e caminhos perdidos, estradas de terra, de asfalto, de tijolos amarelos. Cada acidente um orgasmo, cada caminho um jeito de chegar lá. Mas os caminhos não começam nem terminam  nos acidentes, nem os acidentes estão lá para serem necesariamente alcançados. Por vezes os caminhantes querem apenas andar a esmo. Olhar de longe a montanha, contemplar as ondas quebrando.

Se vida e sexo são um só, a distinção entre preliminares e sexo em si perde qualquer razão de existir. Você até pode tentar manter a diferença, mas vai acabar com um conceito circular – as preliminares começam exatamente quando termina o “sexo”, atravessam aquilo que os manuais chamam de “pós-sexo” e vão terminar lá no próximo “sexo”. No fim, um conceito que não serve para nada. Porque o sexo existe, pode existir, o tempo todo. Qualquer gesto, qualquer olhar, qualquer toque, pode desencadear a escalada do vulcão, o banho no lago ou a corrida pelo campo florido. Basta uma mudança na direção do olhar. Basta encarar a vida como uma imersão contínua e eterna num oceano de sexo sem fim.

Claro, todo mundo precisa dormir, trabalhar, comer e ir ao supermercado. Mas quem disse que cada uma dessas atividades não são parte da vida e, portanto, da vida enquanto sexo?

Não estou sugerindo que você saia agarrando sua chefe, a caixa do supermercado, o garçom do quilo. Você até pode fazer isso, se eles quiserem e vocês combinarem de orientação, mas não é essa a ideia aqui. A ideia aqui é que qualquer momento pode e deve ser aproveitado para se mover na paisagem dos orgasmos – basta prestar atenção aos sinais que você manda e recebe. Basta encontrar outro alguém tenha ânimo para fazer da vida não uma sequência de orgasmos, mas um contínuo de sexo, que ocupa todo no tempo e desfaz as fronteira do espaço.

Porque dormir também é dormir juntos sem roupas, comer também é cozinhar e alimentar alguém, e não preciso nem dizer como isso pode ser sexual, trabalhar também é pensar continuamente em cenas explícitas enquanto a reunião se arrasta ali fora, imaginar mil jeitos de sair dali e ir andar até um acidente orgásmico ou simplesmente mandar uma flor, uma língua ou uma boca vermelha no whatsup.

E tudo retorna a uma nova caminhada em direção ao mesmo ou a outro, um novo encontro com o mesmo ou com outro, uma nova visita ao pântano, uma um novo passeio pela estrada dourada, um novo mergulho no vazio…

PauloCandido* Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

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