Do Que é Preciso ou Pollyanna, Eduardo e Outras Crianças

Se o Pequeno Príncipe não é muito bem visto, imagine a Pollyanna. Paciência, é com eles que sigo. Mas o que a Pollyanna veio fazer no meio da biscatagem? É que tenho lembrado muito dela e do seu jogo do contente. O jogo do contente consiste em procurar ver uma situação desfavorável por um ângulo mais animador. Pollyanna passa o livro inteiro ensinando esse jogo para todas as pessoas que conhece, procurando facilitar-lhes as vidas e garantindo que é mais gostoso viver desse jeito. Aí um dia morre uma pessoa e o amigo dela diz: olha, pelo menos a gente tal e tal (não lembro o que é, se é ficar sem ir a escola ou algo assim). E a Pollyanna explica que o jogo do contente tem essa ressalva, excepcionalmente não funciona no que tange a mortes. A morte é pra ser vivida completa e absolutamente. É preciso sentir o quando, o onde, o porquê. É preciso saber a perda. É preciso sofrer a perda. É preciso chorar a perda.

Não há nada que justifique desviar os olhos da morte do menino Eduardo Ferreira Calei. Não há nada que justifique não acrescentar: do assassinato. Não há nada a aprender. Nada a tergiversar. Nada a amenizar, a minimizar. O menino Eduardo Ferreira Calei, dez anos, foi assassinado. É preciso saber: assassinado. É preciso sentir: uma criança foi morta porque morava em uma favela, era preto, pobre. É preciso chorar porque não sabemos o bastante, não sofremos o bastante. É preciso saber: não foi o único. É preciso sofrer: jovens pretos pobres são mortos apenas por existirem. É preciso engasgar em choro: nós somos cúmplices. Não há horizonte possível, não há humanidade possível, não há jogo do contente possível: o menino Eduardo Ferreira Calei foi assassinado. Ele era, não é mais. E nós, nós todos somos menos, por isso.

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Política de Extermínio: crianças mortas vítimas da violência no Rio entre 2007 e 2009 – Levantamento Rio de Paz

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3 ideias sobre “Do Que é Preciso ou Pollyanna, Eduardo e Outras Crianças

  1. Eu fico impressionada que morre um artista ai pronto, todos os programas falam da morte, fala da vida da pessoa, se emocionam e tal. Morre uma criança na favela ai parece…ahh ele morreu,mas mora na favela né?Ridículo toda vida é uma vida e a criança é um ser puro e inocente …hipócritas

  2. Lu, muito do que queria dizer sobre toda essa história _que envolve além da morte do menino Eduardo outras três mortes em menos de dois dias no Alemão e mais uma ainda ontem depois do assassinato dessa criança_ tu sintetizasse lindamente.
    Muito da minha dor é pelo tanto que ficamos menos depois dessa morte. E por saber que ela mais uma e que ainda virão outras.
    :'(

  3. Lu querida, por motivos vários só consegui ler o texto agora. Obrigada por ele. Você sabe, né, foi essa semana que fui à Maré ver os meninos do CTO. Tão vivos. Com tanta vontade de viver.
    Talvez seja por isso que eu não tenha parado de chorar desde que o Eduardo morreu. Sentado na porta de casa.
    Não que adiante. Eu, chorando na minha casa. Vou pra rua esta semana, não pude ir hoje, mas é preciso. A gente não tem o que fazer. Escrever e ir pra rua. E chorar.

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