Sobre ser gorda e ser livre

Por Bruna Giorjiani de Arruda*, Biscate Convidada

Durante grande parte de minha vida, acreditei que chegaria o dia em que eu, finalmente responsável e esforçada, abandonaria minha “falta de vergonha na cara” e emagreceria. Achei que haveria de chegar o dia em que, de fato, eu mostraria meu valor para a sociedade e conseguiria atingir o ponto máximo da vitória, a conquista de um corpo esbelto.

Lembro-me, de maneira clara, as inúmeras vezes que, frustrada com a imagem do espelho, convencia-me de que aquilo acabaria e, na próxima segunda, eu começaria o caminho de uma vida melhor. A crença no amanhã perfeito me roubou risos, me roubou a autoestima e manteve-me presa na esperança de que, se somente os magros são felizes, em breve, eu seria também.

Acreditava que todos os meus problemas eram fruto direto de minha gordura e que, quando triunfasse, nunca mais teria motivos para chorar. Relacionamentos, roupas, espelhos, comidas, sorrisos, amor próprio confinados em algum canto obscuro dentro de minha mente, enquanto o que assumia o controle de meus pensamentos era a minha constante falha enquanto ser humano, a de ser gorda.

Demorou muito tempo para que eu, de fato, sentisse a libertação de todo estigma social que rondou a minha existência desde sempre. Nasci e cresci gorda. Em algumas épocas mais; outras, menos, mas sempre gorda. Descartada do conceito de “normalidade” corporal, demorou muito para que eu encaixasse o tamanho do meu corpo no tamanho da delícia de viver.

Meu processo de libertação teve início quando entrei em contato profundo com o feminismo. Foi difícil compreender que os padrões estéticos, estes que meus próprios olhos diziam ser perfeitos, eram, na realidade, uma manipulação da escolha sobre o “ser belo”. Entender a trajetória do corpo feminino e como, em tempos distintos, fomos tratadas apenas como adorno, enfeite, objeto de deleite masculino, fez grande diferença na compreensão do fato de que os padrões nada mais são do que grades que condicionam as mulheres em um viver passivo, sem ação e sem sentido. Enquanto nos preocupamos em sermos lindas e desejáveis (dentro dos moldes escolhidos pelos homens), perdemos nossa capacidade de entender o que nos é desejável e o que achamos realmente lindo na vida.

O corpo que eu, durante tanto tempo, neguei é o corpo que entendo hoje como meu templo de prazeres. Ele é gordo, mas sente; ele é gordo, mas goza. O sabor da liberdade, de ser sem prestar contas, de mostrar sem se constranger e de sentir sem medo de ser ridicularizada é palatável. É com base na liberdade que alcancei que me nego a viver em dietas ou fazendo exercícios intermináveis. É dessa liberdade, também, que emana minha ânsia pela vida e o desejo da saúde. Meu corpo é minha escolha. Ele não foi feito para o prazer do outro, ele foi feito para a minha satisfação. Não sou produto, não sou objeto e o sucesso que tanto desejava foi alcançado. Amo minha profissão, meu companheiro, minha família. Amo minhas gatas e, acima de tudo, amo meu corpo. Em mim, a sociedade, de fato, falhou. Falhou no projeto de me fazer infeliz e frustrada, falhou no projeto de submeter mais uma mulher aos anseios masculinos. Sou de fato, um erro, uma falha e, por isso, sigo feliz.

tumblr_lu55wq3Lz91qi350bo1_500

11156222_10200533571418304_7454700366930713511_n* Bruna Giorjiani de Arruda é formada em ciências sociais, pós graduada em sociologia política e ensino de sociologia. Residente em São José do Rio Preto, professora da rede pública e privado e do ensino superior. Militante feminista e comunista, destaca dentro de sua militância a luta anti-gordofobia.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 ideias sobre “Sobre ser gorda e ser livre

  1. Olá Bruna, tudo bem?
    Em primeiro lugar quero agradecer a você pelo belo texto. Parabéns pela ótima atitude e por seus olhos verem o real, verem o quanto é claro e simples a resolução de alguns problemas que muitos acham sem soluções. Vivemos num mundo cheio de aparências, parece até que para todo lado que olhamos vemos apenas espelhos e eles não mostram nosso reflexo mas reflexo de como a sociedade quer nos ver. Estarei sempre esperando por ótimos textos como o seu. E irei divulgar ele com certeza em minhas redes… Tudo de bom para você. Abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *