Talvez um sorvete…

Queria nada, não. Outro dia mesmo, numa dessas megas torres blaster última geração que rasgam os céus da cidadona, mal consegui usar um elevador. Sim, um mero equipamento moderno. Sem botões, não sabia como subir, indicar andar, descer, parar. Bastava entrar e a máquina lá: prum. Minha cara de idiota e espanto.

Nem o celular sei usar. As “mileduas” pastas de arquivo, página de downloads, reconhecimento de voz,  aquele escarcéu todo de possibilidades. Queria era só fazer uma ligação, talvez: “cheguei.” “tudo bem.””como vai.”. Talvez usar a internete. Talvez um sorvete.

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A televisão? Ela grava, assovia, filma. Tem mais recursos que meu cérebro inútil, parado no tempo, perguntando a hora do jogo e preocupado porque vai perder o horário do filme. Queria nada, não. Ou talvez queira, porque nesse mundo tem sido assim o querer sem saber porquê. Nem a maldita regra do “por que porque porquê”…

Queria era um sorriso, talvez. Daqueles repletos, mesmo quando repete piada. Queria era um pau calibroso, durão, bonito, sempre a postos, sem que a porcaria do cartão de crédito ou a flacidez de ânimo estivessem ali, na espreita, na companhia, querendo algo que não sabe o quê. Queria era só um sorvete, de suco com água ou leite, congelado – sem gourmet, mesmo que feito daquela groselha antiquada.  Queria ler livro de papel, jornal de papel, mimeógrafo e colar cartaz de campanha política em poste, com soda cáustica e um cadinho daquela farinha de milho da embalagem amarela na calada do noite. Queria beber sem pressa mas no bar de sempre, sem deixar as calças numa cerveja super gostosa com preço de champanhe e retrogosto de alguma obra do romero brito.

Enfim, ando desconfiado que não caibo mais, não visto mais, não sonho mais, não quero mais…

Nessas horas, confesso, o único remédio possível é recordar, mastigar, saborear memórias, afetos, dengos e de sexos – molhado, amplo, geral, irrestrito, com sabor de quem chupa e se lambuza numa manga amarela doce, veludo, fiapo. No fundo, a tabacaria deveria ter o cigarro, a cerveja e uns libretos de foda.

A caretice é a última carta da tal mão invisível do mercado. Uma mão que não te masturba, mas só nos fode trazendo o prospecto das últimas novidades super lindas das torres de elevador inteligente internetes de oito mil gês e cacetes infláveis com pílulinhas azuis de um matrix sem fim….

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