Teatro do Oprimido na Maré

Por Felipe LSM*, Biscate Convidado

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Domingo,  29 de março, aconteceu a primeira Mostra do Teatro do Oprimido na Maré.

A apresentação, divulgada como ensaio aberto, envolvia três grupos de  jovens, cada um trazendo conflitos do dia-a-dia problematizados em forma de peça:  A garota que queria jogar futebol e o pai não deixava, o garoto que queria fazer teatro e não trabalhar na oficina, o pai que abandonava a família e voltava como se nada houvesse acontecido… Algumas das histórias passavam mesmo a impressão de clichês.

Até você se dar conta de que eram cenas baseadas nas experiências e vivências das pessoas ali. Até você se dar conta de que os clichês vêm de algum lugar. O que torna a cena mais pesada da mostra – uma situação em que o pai abusa sexualmente da filha, que não consegue contar para os amigos e não recebe apoio da mãe – ainda mais assustadora.

E aí você pensa um pouco mais e percebe que quase todos os problemas apresentados se reduzem a um: machismo. Só consigo pensar em uma história dentro da apresentação (que envolvia um garoto discriminado no trabalho por morar na Maré) cujo problema não estava ligado a machismo e papéis de gênero.

Em TODAS as peças, se encontrava uma família na seguinte estrutura:

O Pai: sempre o chefe da família e tomador decisões. O Pai fazia o papel de antagonista e opressor.

A Mãe parecia estar sempre resignada à sua condição de oprimida e, apesar de em geral concordar com a filha, dificilmente tinha forças ou vontade para se opor ao Pai. Mesmo trabalhando fora, recaíam sobre a mãe todas as tarefas da casa, e a cena típica (que apareceu várias vezes) mostrava a mãe fazendo o jantar e servindo o marido, que além de não ajudar, só reclamava).

A Filha: geralmente o centro do problema em questão, A Filha era a oprimida que de fato tentava lutar contra a opressão do Pai. Às vezes recebia o apoio da Mãe, mas nunca de forma muito enfática. Em uma das histórias, havia um filho nesse papel, com uma questão que envolvia fazer uma atividade que não era “de macho” (teatro), com a qual o pai (claro) não concordava.

Algumas das famílias incluíam uma irmã, um irmão, uma tia, mas – independente de estarem ou não no papel de oprimido – esses personagens não pareciam interessados em questionar o patriarcado.

Analisando esses arquétipos das personagens, talvez seja interessante lembrar que as peças foram concebidas por grupos de teatro jovens, e retratam vivências do seu cotidiano.

Como acontece tradicionalmente no teatro do oprimido, as situações nunca chegavam a uma resolução e, ao final de cada apresentação, as pessoas da plateia eram encorajadas a tomar o lugar de uma das personagens numa cena e buscar resolver o conflito apresentado. Havia alguma variação nas soluções: umas mais sérias e argumentativas, outras mais engraçadas e impulsivas. Dependendo da cena, das abordagens e dos atores participando do improviso, algumas funcionavam melhor do que outras. Na primeira intervenção, um garoto assumiu o lugar da mãe e expulsou o pai ausente de casa sob ovação da plateia. Aliás, em todas as cenas, havia meninos fazendo papel de meninas, meninas fazendo papel de meninos.

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Mas, no final de tudo, sempre vinha o “curinga” (como são chamados os animadores que fazem a intermediação com a plateia), lembrando que aquilo tudo era reflexo de um mundo real. Que aquelas personagens eram pessoas, e as histórias, vidas. E de repente nenhuma resposta parecia boa o suficiente. E de repente você se via perguntando, de novo e de novo: o que fazer?

FelipeLSM

*Felipe LSM assina assim porque não quis escolher um sobrenome. Gosta de criar laços e entender pessoas, odeia impotência, morre de medo da solidão e tem conflitos com essa coisa de paixão.

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Uma ideia sobre “Teatro do Oprimido na Maré

  1. Um belo texto, um olhar franco sobre interpretações de um cotidiano nada fácil. Entre várias coisas bacanas na análise, o fato do “crítico” jamais se colocar acima das histórias ou dos personagens, como acontece tantas vezes no jornalismo, por exemplo. E além da boa reflexão, que instiga a pensar na realidade á nossa volta e nos papeis, assumidos ou impostos, a importante lembrança de que “os clichês vêm de algum lugar.”

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