Tempos amargos

Quando penso no nosso tempo presente, me recordo dos amargos versos de Cálice: tanta mentira, tanta força bruta. E dói, sabe? Presenciar o avanço desse conservadorismo, já tão reverberado e amplificado nas redes sociais, junto com a crescente onda de intolerância e da violência contra grupos minoritários, é coisa que faz dobrar até o mais otimista dos sonhadorxs.

E aí a gente cansa, quer jogar a toalha, dar um tempo.

Um beijo de duas mulheres idosas “choca” o país e faz com que toda uma trama promissora seja repensada. Uma travesti é brutalizada na cadeia (caso Verônica Bolina) e tratada como um animal em exposição pública. Uma mulher, Amanda Bueno, 29 anos, dançarina de funk, é morta de forma hedionda pelo companheiro e câmeras registraram tudo. Um menino de 10 anos, Eduardo de Jesus, é assassinado com uma bala na cabeça, disparada por um policial no Complexo do Alemão. Na política, os projetos mais conservadores e regressivos, como a lei da terceirização, que visa precarizar ainda mais as relações trabalhistas, corre grande risco de ser aprovado. A pavorosa redução da maioridade penal. A bancada política que atende aos interesses da bala, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e da negação dos direitos humanos está mais do que articulada e infiltrando seus tentáculos em tempos de crise e caos.

E uma das coisas que mais me doem, do macro ao micro, é ver essa perversidade expressada no campo do cotidiano. Gente que nunca soube na vida o que é viver sem seus privilégios de classe, cor, sexo, gênero e etnia, e, na atualidade vêm placidamente a público defender os seus interesses. Sim, as marchas dos dias 15 de março e 12 de abril foram protestos burgueses marcados pelo discurso de ódio e pela manutenção (e aumento) dos privilégios de quem já os têm e parece nunca se dar conta disso. Não é de embrulhar o estômago?

E o conteúdo político dessas marchas, afff… Desperta em mim a síndrome de Regina Duarte: elas me dão medo. Porque são movidas por racismo, por beligerância, pela aniquilação do outro, pela anulação da diferença. Na minha humilde cosmovisão, elas demarcam mais do que uma oposição política; elas são sintoma de puro mau-caratismo de uma elite rançosa, decadente e tacanha.

E, pra piorar o estado de coisas, a sociedade brasileira não se assume como violenta. Mas ela é, até o tálamo. Um prato cheio pra gente aplicar a tese da banalidade do mal, da Hannah Arendt. E uma cultura como a nossa, que permite a naturalização da violência, o mal, esse que desconsidera o outro e implode com a prática da alteridade e da justiça, tem se instalado com tamanha força que o que sobra pra gente é o peso do pessimismo e a falta de esperanças em dias melhores.
Mas amanhã, vai ser outro dia…
Tomara, viu?

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