Velhice – a vida na prateleirinha?

Velhice. O que acontece com as pessoas caso não morram antes.

E o ponto de partida desse texto é o rebu causado pelo beijo das maravilhosas Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro em “Babilônia”. Como um fio a ser puxado de um novelo. Mas é só um fio mesmo.

Muito se falou do beijo por ser um beijo gay. Mas a mim impressionam também certos “que nojo!” que andaram dizendo por aí. Nojo? Beijo? Beijo gay? Não, não apenas. Beijo entre pessoas idosas. Beijo na boca entre pessoas idosas.

Pessoas idosas: pessoas. Como pessoas adolescentes, jovens. Como pessoas adultas O que quer que seja isso: adulto é um não-ser. Já não é mais adolescente, ainda não é idoso. Tá no meio. Sem adjetivos. Pessoa apenas. Ponto de vista. Já as “pessoas idosas” são vistas, tantas vezes, como se não fossem mais. Ainda sendo.

Tiram-se delas, sem nem perceber, direitos: de vida. Como se aos idosos coubesse ficar sentados na prateleirinha, esperando o dia em que deixarão de ser de verdade. Então, tudo causa escândalo, tudo é motivo de espanto: viagens? Pra quê?  Você vai se cansar. Namorado? Não já passou o tempo disso? Olha, ele só pode estar querendo se dar bem em cima de você. Por que outro motivo? Um curso novo? Na sua idade? Dinheiro jogado fora. Melhor botar na poupança. Deixar para os filhos, para os netos, para os sobrinhos. Sente ali na prateleirinha. Quietinho. Isso. Não faça barulho. Espere. Espere. Vai chegar.  Não se agite. Não se irrite. Calma. Está vindo, não percebe?

Sexo? Aí não, né. Aí é demais. É feio, é grotesco, é errado. É incômodo, é desagradável. Sexo de idosos. Que idéia. Prazer? Idosos, prazer? Jura?  É quase indecente pensar nisso. Não, não, esquece.

Velhice: apenas o que acontece com quem não morreu antes.

Mas parece que não. Com uma sociedade em que, cada vez mais, o ideal é o rápido, o efêmero, o novo, o jovem… ah, esse sim, dinâmico, veloz, enérgico, em tudo se parece com o ideal dessa sociedade em que a história, a memória, a experiência são cada vez mais desprezadas em favor do rosto sem rugas e sem vida pregressa de quem ainda mal começou a viver.

E os idosos, ah, os idosos… e no entanto. É só olhar em volta. Estão por aí, por todo canto. Fazendo viagens, conhecendo gente nova, caminhando na praia, jogando na praça, contando histórias. Estudando, pensando, divagando, esculpindo, pintando. Trabalhando, ralando, se esforçando, aprendendo. Idosos são pessoas vivendo. Continuando a vida.

Questões de saúde? Problemas de vista, dificuldade de andar, outros cuidados? Sim, evidente. Mas isso é apenas uma parte. Como é parte da vida de tantas outras pessoas. Que não precisam ser definidas por essas questões, por esses problemas. Modos de olhar.

Pessoas. Que já viveram um tanto. Mas que estão vivas. Hoje, vivas. Vivendo a vida de agora. Com os beijos de agora. Os amores de agora, as tristezas de agora. Continuando a fazer sua história, a cada dia. Fora da prateleirinha.

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2 ideias sobre “Velhice – a vida na prateleirinha?

  1. querida renata, vc escreveu tudo o que estou tentando colocar no papel sem conseguir terminar. chorei baldes lendo isso. acho que porque estou em pleno inferno astral, com a cabeça todo dia dando nó…
    sábado 4 faço 67 (sessenta e sete!!!), agora que percebi, e essas questões estão presentes todo dia, toda hora, cada segundo da minha vida corrida e de muita ralação. são questões sutis e não explicitadas no cotidiano, mas que estão lá – acho que vem até de mim mesma, e isso é que é mais perturbador.
    impossível não pensar nessas coisas quando se está prestes a fazer 67 anos, e logo mais 68, 69 e 70…
    estou muito mexida com essas coisas, querida, grata pela força de suas palavras…
    amor da beth

    • Pois é, Beth. E o que são 67? Vida vivida, muita vida vivida. E mais caminho pela frente. Só que parece que não, se você pegar as revistas, os filmes. A gente vê todo dia as atrizes de Roliúde se transformando para poder fazer papéis de mais novas, ou sendo relegadas a coadjuvantes das coadjuvantes… mundo esquisito e duro esse. Só que todo dia e todo dia, estão aí as pessoas, as mulheres, dando de ombros pra isso e continuando a viver. Que é isso que a gente tem pra fazer. Beijo grande pra você!

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