A arte da punheta canhota

Outro dia, numa deselegância colossal, quebrei a mão. Sim, o tal metacarpo quinto, da mão direita, a que escrevo. O motivo da deselegância? Futebol. Meu time perdeu uma peleja e eu, incomodado com a forma mais do a derrota, desferi um soco numa mesa. A mesa passa bem, incólume. Eu…

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Essas fraturas nos tiram bem mais do que locomoções, manejos, praticidades. Elas fraturam também os pequenos pedaços da alma que nos moldam. Fiquei deprê, confesso. Fui um idiota e quebrar a mão por causa de uma deselegância dessas não faz menor sentido. Ou faz… sei lá.

Certo, também, que não era só o futebol. Percebi, depois da alucinada reação, que naquela semana estive mais preocupado do que o habitual com contas, mais do que sempre com as frustrações de um trabalho que mais mecânico cada vez e vez mais. Uma semana onde queria chope, mas veio refrigerante sem gás. Uma semana em que – mais uma vez – um desapontamento com a política me tirou mais encantos, me tornou mais cético, mais cínico, menos sonhador. E quando o time perdeu, sem alma, sem brigar, sem fazer furdunço dos indignados – ainda que papelão de derrotado, projetei, me vi no espelho, bovino e pronto: prum trabum crac. Gesso.

Tirei esta semana o gesso. E tá doendo muito, tudo. A mão inchada pelo mês parado. Aquela sensação que sua mão parece um pão. O dedo não dobra. A articulação parece a interlocução do governo Dilma com a sociedade, dura, macilenta. O metacarpo? Tá lá, escondido, desviado um cadinho. Passou medo pela cabeça, de nada voltar a ser como antes. De não conseguir me desvencilhar desta porcaria de dor. E me odiei mais um cadinho, neste exercício de perseguição que a gente comete quando faz uma cagada monstruosa, como esta que relato.

Mas neste mês de gesso, olha lá, finalmente fiz uma planilha excel para uns cálculos de uns processos. Antes, fazia todo o trem de cabeça, anotava, pensava. A tal planilha revolucionou o mundinho do meu trabalho, meu mundinho chato de escritório e saíram mais cálculos, tirando um pouco de peso dos atrasos acumulados. E aprendi a usar a esquerda para muitas e muitas coisas. E percebi também o quanto este mundão é despreparado para quem tem restrições de algum tipo… Do ônibus ao banheiro.

A esquerda…. a mão esquerda…. Era ela uma companhia fina quando era adolescente. A piada era boa: Se masturbar com a esquerda dormente dava a impressão de que era outra pessoa a fazer o ato… Uma arte deliciosamente canhota.

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NU RECLINADO COM O CABELO SOLTO, 1917, ÓLEO SOBRE TELA DE AMEDEO MODIGLIANI/OSAKA CITY MUSEUM OF MODERN ART

Pensando bem, a esquerda… bati de novo a punheta sagrada. Devíamos nos masturbar mais e quem sabe a punhetação do resto das cousas não nos incomodasse tanto. Há punhetas e punhetas, cabendo a nós – desconfio – qual masturbação escolher.

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