História de vó

Quando eu era criança, tinha tanto medo de que ela morresse que, todas as noites, antes de dormir, pedia pra ir antes, porque do contrário eu não ia aguentar. Minha avó Maria sempre foi uma das pessoas que mais amei na vida. Doce, divertida, carinhosa, tímida. E, ao mesmo tempo, firme, debochada, capaz de bons ardis pra conseguir o que queria.

Das histórias que adoro, uma das preferidas é a de seu voto escondido no PT do final dos anos 80, ainda que meu avô, fundador do Arena (!!!)  em Pirapora, minha cidade natal, estivesse crente que podia escolher por ela. Não podia. Ela sorria e aquiescia, mas na urna, sozinha, foi soberana e autônoma em sua escolha.

Não era especialmente quituteira. Não era dessas. Mas, sempre fez o melhor pão de queijo de todos! E um pavê de abacaxi maravilhoso, para ocasiões especiais. E nas vezes que não tinha nada em casa pra oferecer pras visitas, aparecia com uma jarra de limonada e bolacha de água e sal.

Uma vez, tentou me ensinar a fazer crochê. Tadinha. Tarefa insana e inútil. Nunca aprendi. Que nem ela era boa na função. Minha avó não era exatamente uma mulher prendada. Mas, me ensinou outras coisas. Coisas da vida. Reflexões atávicas sobre o racismo que sofreu, de tantas maneiras perversas, e que muitas vezes ela nem sabia bem o que era, embora soubesse que machucava. Que humilhava. Disso, ela nunca teve dúvida.

Lembro de histórias soltas, frases cruéis, que não repito porque não consigo. Lembro de algumas coisas…

E me lembro também de quando ela se juntava com seu irmão, meu tio Gino, e contava casos e cantava canções de antepassados que viveram em senzalas. Histórias que ela ouvia da própria avó, que foi quem a criou e a seus irmãos. E eu, tão criança, nem sabia direito o quão solene era aquele momento. O quão fundamental seria para a escrita da minha própria história.

Dizia-me “intiligente” e me mandava ler em voz alta os livrinhos das edições Paulinas, que ela assinava desde sempre. Achava bonitinho me ver pequena “lendo tudo certinho”. Não me catequizou. Mas, certamente, ajudou muito em minha oratória.

E me levava para o asilo público da cidade toda semana pra conversar com as velhinhas. Dando-me, do jeito dela, uma aula de generosidade, gentileza, entrega e um pouco de porvir. Tinha uma que colecionava bonecas. E aquilo me assustava. E me fascinava. Ficava pensando naquela senhorinha brincando com elas, e parecia não combinar. Realmente, eu não sabia de nada.

Minha avó também me deixava comer uva verde da parreira do quintal. Com sal. E depois me dava uma colher de ruibarbo, pros vermes. Era tão ruim, que chegava a ser bom. No final, virou um ritual nosso, só amargo no sabor na colherada. Remédio pros vermes também era carinho.

Uma vez, comentei que gostava de doce de figo. Coisa que só descobri grande, porque figo não era fruta comum em Pirapora na minha infância. E ela passou a me esperar com uma compota quando eu ia de férias. Às vezes, uma compota pequenininha, que cabia numa xícara, porque ela nem encontrava tanto figo assim. Mas, estava lá. Me esperando.

Com ela aprendi a palavra “malinar”. Dizia “menina malina!”, sem saber que ralhando fazia poesia.

Se estivesse viva, teria feito 93 anos no dia 9 de maio. Morreu tem quase 1 ano. Já eu, fico aqui, lembrando dos últimos anos, quando ela foi deixando a memória de lado, mas permitindo aflorar aquela rebeldia incubada, de quem sublimou tanto, por tantos anos. Os palavrões. Ah.

Acabei de voltar de Minas. A primeira vez, depois que a enterramos. E também a primeira vez que estive lá e não fui em sua casa, vê-la. Porque. E nessa vontade constante de contar historias de mulheres, quis falar um pouco sobre a minha avó.

 A música é porque ela adorava!!!

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4 ideias sobre “História de vó

  1. Vanessa, eu te agradeço, profundamente, por dividir algo tão intenso. Enquanto lia, fui surpreendida por uma forte emoção. A minha avó, bem como a sua, também não pertence mais ao mundo palpável que continuamos habitando. No entanto, acalenta saber que elas serão sempre uma parte valorosa daquilo que somos e que ainda nos transformaremos. Obrigada, menina.

  2. Que lindo! Não consegui conter as lágrimas. Acho maravilhoso ler essas histórias. Leio suas lembranças e passa um filme na minha cabeça, no meu coração.
    Nos meus guardados não tem tanta riqueza de detalhes, mas incrivelmente, guardo cheiros e sabores.
    Sou sua fã, tenho muito orgulho de você.
    Beijos

    • Rê, fiquei aqui tentando lembrar quem é Rejany Cristina… rs Obrigada, querida prima. Também tenho muito orgulho mesmo de você. =)

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