Mais e Menos

Ainda bem menina do juízo ouvi falar de Freud e da ideia de que viver é um estado permanente de incompletude. De que a possibilidade de ser/existir advém justamente dessa impossibilidade de ser-todo que nos estrutura. E para mim isso fez – e continua fazendo – todo sentido. Além, isso me proporcionou uma bem vinda liberdade, especialmente no que tange a relacionamentos.

incompleta

Saber que não é possível a metade da laranja, a tampa da panela, o encaixe perfeito, o sapato velho pro pé cansado (qualquer que seja a alegoria preferida), me fez lidar de maneira mais solta com as idealizações, demandas e expectativas tão disseminadas na cultura a respeito do amor romântico.

Não importa o quão bom seja o relacionamento, não importa o tanto que o moço ou moça nos faça bem, não importa o quanto a gente se acerte, se ajeite, se curta, vai ser menos do que o que nos completa (ainda bem). Reconhecer isso geralmente me garante duas frentes:

1) ter a monogamia como algo irrelevante nos meus vínculos: saber a minha incompletude é, também, reconhecer e respeitar a das outras pessoas. Sentir que ninguém vai ser capaz de me completar (inclusive ninguéns, porque não é uma questão de quantidade) me faz lidar de forma leve com o fato de que eu também não sou “o que basta” pra alguém. Que o que falta ao outro, para além de mim, se encontre ora em um disco, em uma caminhada, em um programa de tv ou em sexo onde eu não estou envolvida não implica na diminuição, aviltamento, whatever, do que a pessoa sente e vive comigo.

2) amenizar aquele momento pós lua de mel dos afetos: a gente se encontra, se esbarra, se roça, se enrosca, se encanta, mergulha. A pele arde, o corpo pede, palpitação, falta de ar, deslumbramento. Gozo. Muitas vezes se pensa: agora vai, é essa “A” pessoa. E quando o desassossego encontra o cantinho dele no peito que lhe é de direito (seja primeiro no nosso, seja primeiro no do outro), sem a ideia da incompletude ali na mesinha de cabeceira, a desilusão com a outra pessoa, com a gente, com os relacionamentos de maneira geral cai na cabeça que nem piano em desenho animado da infância.

Lembrar que a impossibilidade da completude é o que nos define e nos possibilita viver me ajuda a reconhecer meu desejo e lidar com ele. Seja para partir em busca do coração em descompasso e da sensação de inebriante bebedeira de um começo outro com outro pequeno vislumbre do encontro perfeito, seja para respirar, puxar o cobertor mais um pouquinho pro meu lado, encaixar no abraço e seguir.

É que, penso eu, não há garantias. Não há escolha certa. Saber o não-toda tem uma beleza silenciosa que é acolher, em antecipações, o que vem. O que faremos de nós. O que nos acontecerá e o que faremos com isso. Vem, vida. Sentir que amor e felicidade não vivem uma relação causal, que felicidade é nas horinhas de descuido, alivia.

Então eu falto, eu falho, eu tropeço, eu manco. Eu não-toda. Buracos. Espaços. Às vezes úmidos de lágrimas. Mal não há, o molhado faz o fértil, tantes vezes. Então o mais, o além, o depois, o também. Então o desconforto, o desassossego, o desmantelo, a demanda. Então o repouso, o morno, a certeza, o descanso. Então os encontros, as marés, as danças, os ritmos. Tudo menos do que. Bonito. Gostoso. O vão, a brecha, o intervalo, lacuna. Os outros. E a voz da Elza Soares no peito:

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