Nua

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Imagem daqui

Eu gosto de estar nua. Gosto, especialmente, de andar nua. Não foi sempre assim, lembro que com doze, treze anos, pra trocar de blusa na frente de alguém, nem que fosse, sei lá, minha mãe e mesmo que eu estivesse de sutiã, virava as costas pra pessoa. Aí o tempo passou e eu fui aprendendo sobre meu corpo, vivendo sua gostosura, apreciando senti-lo e deixando as roupas cada vez mais tempo em seus cabides. Hoje em dia tenho que me lembrar de me vestir pra sair e muitas vezes assusto as visitas começando a tirar a roupa na sua frente até me tocar e ir pro quarto ou algo assim.

Sim, eu gosto de estar nua pelos óbvios motivos biscates. Gosto de tomar banho, água quente na nuca, espuma na pele, gosto de me esfregar com vagar e deixar o corpo gozar de ser tocado. Gosto de estar nua ao me masturbar. Gosto de me despir na frente do (s) moço (s) e ver seu olho me vendo. Gosto de ir deixando pele nua encostar em pele nua. Gosto de mãos espalmadas no meu corpo. Gosto de línguas umedecendo carne. Gosto do roçar, do calor que vem de dentro pra fora, gosto do suor escorrendo na nuca, dos mamilos endurecidos, dos pelinhos se eriçando.

Mas tem mais nisso de gostar de estar nua, mais do que deixar meu corpo nu em outro corpo nu (e isso não é pouco). Gosto do meu corpo nu por ele mesmo. Pelo que me conta. Pelo que diz de mim pra mim. Gosto de levantar os braços e ver os seios subindo, as aureólas mudando de lugar. Gosto de deitar e vê-los escorrendo pro lado. Gosto de pressionar os braços e ver aquele vale a la espartilho antigão se formando. De olhar minha mão e reparar que os dedos do cotoco são meio curvados pro lado enquanto os outros são tão retinhos. De cutucar os pelos nascendo na perna, macios, alguns encravando depois de uns dias da depilação com lâmina. Não gosto muito do cotovelo, daí todo dia, depois do banho, fico na frente do espelho olhando pra eles um bom pedaço, dizendo pra mim mesma que, ué, são esquisitinhos, coitados, mas são meus. Gosto de colocar reparo se meu tornozelo está caminhando em direção a se tornar membro da família do meu avô ou se é impressão causada pelas coxas grossas. Gosto do meu totó, corcundinha de estimação. Gosto dos inexplicáveis arranhões que consigo fazer nas costas, em uma flexibilidade noturna que nunca consigo repetir acordada. Do sinalzinho de carne que tenho na parte interna da coxa. De fazer ponta e sentir o esticadinho que dá do dedão até a coxa. Gosto.

E de andar nua, já disse né? Tudo isso, mas em movimento. Gosto de sentir o peso alternando de um pé para o outro, a palma toda encostada ao chão. Do movimento da bunda, o sobe e desce. Do peso da barriga, o ondular ao mover-me. Do roçar dos braços nos lados do peito. Das coxas no encontro, desencontro, encontro, desencontro. Do respirar e sentir o ar levinho, fugindo, entre os lábios. Sentir o corpo meio cortando o vento, o tempo, as coisas que o negam ou definem.

Andar nua na frente do outro: bônus.

Ficar nua, estar nua, ser nua na vida. Como metáfora, mas, principalmente, como materialidade. Não ter vergonha. Meu corpo não tem erros, tem história. Estar nua me lembra as alegrias, as dores, os desassossegos, os prazeres, os soluços, o parto, os abraços, a amamentação. Estar nua me conta infâncias de rua, asfalto, quedas e brincadeiras. Estar nua me diz de adolescência em flertes, livros e amassos. Estar nua me recorda amores, rugas, rusgas, encontros, viagens, praias e cobertores e risos e riscos, cicatrizes, caminhadas, repouso em camas e corpos outros. Envelheci. Engordei. Enruguei. Eu. Estar nua me lembra que o aqui é tudo que sou, que me fiz ser, que pude me fazer. Queria contar isso para vocês: é bem bom estar nua. É bem bom estar.

Eu gosto de estar nua.  E vocês?

 

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4 ideias sobre “Nua

  1. Eu gosto muito, muito também. Minha mãe sempre foi de andar meio pelada pela casa, e acho que isso me influenciou. Gosto de andar nua pela casa, e principalmente, de dormir nua, mesmo no inverno. Do contato da pele (o primeiro encostar do corpo depois que a gente tira a roupa, acho muito excitante com esse algo de aconchego), mas não só do contato da pele em outra pele, mas do contato da pele no lençol, na coberta…

    • Poxa, esqueci de falar disso: só durmo nua. A não ser quando estou no sofa dos amigos, aí mantenho alguma compostura (mas sem peças íntimas). É bom demais, concordo com você sobre o contato…

  2. Adorei o texto. Detesto-me nua, meu corpo enoja-me. Não aguento caminhar nua, principalmente por sentir o cachoalhar dos seios, quando o faço. Tenho medo de mim…

    • Beatriz, demorei um tantinho pra responder, desculpe. Seu comentário me desnorteou por alguns momentos. Eu não sou boa em conselhos, por isso não vou dar nenhum. Vou fazer um convite, vou te chamar pra apertar aí na tag “corpo” do nosso clubinho e ler, quando der e quiser, no seu tempo, os posts que lá estão. Que, espero, te façam bem como fazem a mim. Espero que nosso clube seja lugar de acolhimento pra você. Um beijo.

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