A Dor é Minha e Ninguém Tasca

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Nesses tempos de árdua luta por tantos Direitos Humanos me coloco na empreitada da defesa de um dos mais antigos deles: o direito à dor. Quero falar da humanidade de tod*as nós, do direito inalienável à dor e à tristeza. Daquela reserva de enfraquecimento à qual tod*s temos um quinhão e que tant*s julgam ser quase uma ofensa.

A passagem por um mundo racista, classista, misógino e homofóbico não é brincadeira. Onde falta afeto, sobra dor e quem nunca teve que lidar com isso não sei como conseguem, racionalizando ou evitando sentir). Eu não, não vegetei, nem racionalizei. Sofri e sofro mesmo, sempre que posso, sempre que a vida me “permite” ainda que contra a minha vontade. Mas vontade da gente é coisa que esse mundo menos respeita…

Me recuso a me sentir culpada por me desequilibrar, não vou rastejar o perdão de quem queria que eu fosse forte porque tem a ilusão de que seja. Não sou forte sempre…Mas sempre é daquelas palavras de gente que pra mim soa como mentir pra mim mesma. Não minto pra mim mesma, só quando eu digo que não faço isso…

Sim, é contraditório, e também complexo. Porque ao mesmo tempo você é a sofredora e sua própria redentora. Não, o príncipe não virá te redimir. É sozinha mesmo. Porque o príncipe não redime nem a ele próprio. Já caiu faz tempo do cavalo branco.

Sem príncipe e sem cavalo branco seguimos em frente na nossa dor que essa sim, é só nossa. Como o imposto de renda, que odiamos, mas é de nossa responsabilidade e fugir dele pode trazer tantos prejuízos futuros que é melhor enfrentar. Pagar logo essa merda, ainda que parcelada. E a merda fede. Fede muito.

Fede tanto que exala e incomoda quem está ao redor. Mas, quem não puder cheirar um pouquinho a merda do outro ai nunca amou, né? Porque se a gente fosse só Chanel nº 05 intoxicaríamos antes dos 30 anos. E eu quero chegar ao menos nos setenta, cheirando e fe(u)dendo, como todo ser que transpira em cima dessa terra. O problema é que alguns pensam que vivem em outro lugar. Talvez no paraíso, ao lado de Descartes. Anjos serenos e fortes que não sofrem e nem se desequilibram.

Eu, que às vezes me descabelo e choro, não me sinto à altura dessas pessoas. Tenho medo de altura. Tenho náuseas. E de náuseas, já basta a do ansiolítico. Prefiro mesmo sofrer de vez em quando e depois melhorar, depois levantar, depois seguir em frente. Mas nunca mais a mesma, nunca mais como antes. As sequelas são como as rugas: estão lá, e você escolhe(?) ligar ou não pra elas. Só isso.

Não vim pra cá pra repousar. Não ando com os dois pés no chão. Quem vive assim é estátua. Vivo mesmo como o Saci-pererê. Já não tenho as duas pernas.Não opero com 100% de mim mesma, parte ficou pelo caminho, parte trago comigo.Não sou fênix, não renasci das cinzas, trago-as comigo, sombreando um colorido inicial que só resiste por completo na tela de quem se blinda.

Não uso colete à prova de balas nem curto Romero Brito.Vou de peito aberto, tentando me esquivar. Sou uma tela toda manchada de cinza cor de sangue. Mas gozo, gozo muito em cima de uma perna só.

10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

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