Da impotência ou para quê se luta mesmo?

A sensação é de pés e mãos amarrados com grossas correntes de ferro. Uma sensação de impotência do tamanho do mundo. Como convencer uma mulher de que é necessário denunciar a violência doméstica que está sofrendo? Antes disso. Como fazê-la enxergar que aquela situação é de violência? Como fazê-la ver e, as pessoas a seu redor, que não é normal ter que trocar todos os número de telefone pra evitar as ligações do ex-companheiro, que não é normal as ameaças de morte que ele faz?

Em se tratando de uma pessoa com quem você tem uma relação de afeto, como tratar disso? Como manter a calma e não ser possuída por um espírito de onipotência, achando que pode resolver tudo? Como estabelecer um canal de diálogo se a pessoa te evita e diz que não quer “te dar trabalho”? Como acolhê-la e convencê-la de que a lei a protege, de que existem vários mecanismos para obriga-lo a ficar longe e que fugir de cidade em cidade não vai acabar com a situação que ela vivencia?

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Como conversar com ela que, apesar dela ter te visto crescer, você sabe do que está falando? Mas como fazer isso sem cair numa auto promoção gratuita? Sem cair em autoritarismo? Como não perder a calma e a vontade de sacudi-la dizendo: “fia, ele vai te matar”? Qual o equilíbrio entre ser invasiva demais e ser omissa? Como lidar com a frustração se ao cabo de todos esses dias, essas conversas e telefonemas ela optar por não denunciar?

Como acionar a rede de atendimento para mulheres em situação de violência se ela sequer se reconhece como tal? De que adianta tanto conhecimento, tanta militância, tantas estatísticas, casos tenebrosos e também finais felizes se você não consegue convencer alguém que está ali, do seu lado, de que é preciso envolver a polícia? De que não precisa ter vergonha ou medo? E como propor às pessoas que ao invés de falarem que “ela é fraca” por não denunciar, dissessem por aí que “ele é criminoso” por bater?

De que forma posso convencê-la de que, ao contrário do que ela diz, ele pode ter a coragem de matá-la? Como dizer a ela que isso que está acontecendo com ela, atinge milhares de mulheres no país todo?

Update:

Não consegui falar nada daquilo que eu esperava para ela. Ela simplesmente me pediu para não importuná-la mais. Se por um lado me dói a vulnerabilidade dela, por outro me dói a impotência e a sensação de não ter feito nada. Mas ainda cabe a reflexão dos nossos limites e dos limites da lei ante a casos como esses. E o entendimento que o enfrentamento à violência começa bem antes da chegada a delegacia ou qualquer outro equipamento.

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