Feminismo e relações abusivas

No palco, na praça, no circo, no banco de jardim… Esses versos de Mambembe me fazem pensar em como a liberdade também pode ser assim, matreira, solta, malandra, moleque, quando a gente permite se desfazer de certas amarras nocivas. Ela sai por aí e rola no ar, desce ladeiras, abre caminhos e molha por dentro. Alivia. A liberdade serve pra ventilar o coração. Pra fortalecer recomeços. Pra recuperar autoestimas combalidas e rotas. Pra fundar outros percursos. Pra reinventar a vida, que é o que gente faz o tempo todo e às vezes não se dá conta. Pois, em verdade vos digo: sobrevivemos. E do cenário de escombros, uma flor. Das dinâmicas perversas, clareza pra sair. Dos relacionamentos abusivos, coragem pra dizer não. E outra coisa: correr de pessoas que abusam da nossa fragilidade. De gente emocionalmente fechada. Desses tipos perversos que declaram amor apenas pra se sentirem menor pior, às nossas custas. Narcisos que precisam do espelho alheio e da força de alguém pra se enxergarem fortes, bonitos e inteligentes. Não. Meu espelho não vai mais refletir ou projetar vaidades de outrem. Meu espelho é pra ser respeitado em sua imagem e pranto. Sabe, quando estamos fracas e implicadas em relações abusivas, porventura até conseguimos ver as coisas como elas são, mas frequentemente não temos forças pra sair. E aí, querendo amor e alguma redenção lá na frente, a gente vai alimentando o palco de manipulações e jogos de poder que o outro exerce sobre nós. E dói e às vezes até dá vergonha ficar tão empacada em uma história tão sabidamente sem futuro, logo você, que sempre foi tão hábil em detectar possíveis ciladas. Em tempo: feministas também entram em roubadas, como todos e todas algumas vezes na vida. E de repente, meu feminismo, que sempre ofereci as outras como um abraço generoso, não estava dando conta de mim. Por longos e dolorosos momentos, não nos pensamos também como vítimas de ególatras narcisistas. Abarcamos sozinha toda dor e culpa. Claro, dei o meu quinhão nessa história. Possuo a minha agência, meu poder de ação e discernimento. E é justamente isto que tenho lançado mão pra entender o que se passou e pra me proteger dessa história bisonha que eu presumia ter algum controle. Às vezes a gente tem tanto orgulho e se considera tão autossuficiente que não se enxerga como vítima. Mas sim, pra nossa falta de sorte, isso acontece. E creio que aceitar essa condição é um primeiro e importante passo pra modificá-la. E não, o feminismo não tem que dar conta de tudo. Não tem que dar conta do outro, aliás, não pode. Afinal, se um relacionamento é feito a dois, qual o sentido em se colocar como a única protagonista de um possível fracasso afetivo? Nas entrelinhas, que nós não transformemos as vítimas em culpadas. Mais uma vez, vamos pegar mais leves conosco. Infelizmente, a lógica da violência machista e misógina está aí para todxs. Até para mulheres feministas.

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