Mães dançando, filhos envergonhados

Alguém (que eu não conheço, é amiga de amigos) postou no feicebuque uma foto de mulheres dançando, com a legenda: “mães dançando, filhos envergonhados”.
E isso apenas deu o mote para um texto que já tava se escrevendo por aqui há um tempo. Porque tanta gente reconhece essa legenda. Tanta gente se identifica com ela. E acho que pouca gente para pra pensar no que está por trás.

“Filhos envergonhados” de quê? Mulheres dançando. Ué, os filhos dessas mulheres não dançam, será isso? Não gostam de dança? São contra a dança? Só gostam de contradanças?

Será?

Pois bem, até pode ser. Quem sabe. Até pode ser, às vezes. Mas não me parece que seja isso na maioria das vezes. Para a maioria dos “envergonhados”. Eles dançam, sim. Eles balançam seus corpos jovens, esguios, elegantes, modernos na pista de dança. Nas ruas durante o carnaval.
Eles dançam. Dançam porque podem.

Podem porque são jovens. Basicamente isso: porque são jovens. Aos jovens, tudo. Aos jovens, holofotes. Brilhos, fotografias, legendas aprovando. Jovens: corpos com selo de aprovação.

As “mães” da história: erradas. Erradas, já que não tão jovens. Motivo de vergonha para os filhos.

Sim, sim, claro que sei: era uma mezzo brincadeira. Os filhos só ficam meio com vergonha, nem reprimem, de fato. Mas não queria, mesmo, deixar passar. Não queria, mesmo, deixar pra lá. Queria fazer aquele papel de insuportável grilo falante, a enfiar dedos em feridas que se preferiria ignorar. Adiante.

E então. Essa sociedade, a nossa, tem uma hipervalorização da carne fresca. Carne jovem. Linda, elegante e sincera. De começo de era. E isso, como tantas vezes, subentende o lado B. O desprezo pelos não-jovens. Mulheres, então…. tão melhor quando se comportam de forma compatível com a idade. Tão sem-noção isso de se exibir assim, na pista de dança. De usar saia curta. Decote. Não se enxerga não? Será que tá faltando espelho em casa? Quem pensa que é, a sair por aí expondo-se aos olhares dos outros como se isso fosse aceitável? Um xale, talvez. A saia um pouco mais baixa, certamente. Um pouco mais de compostura, sem dúvida. É de senhoras que estamos falando. Onde está o comportamento compatível com a idade?
Coitados dos filhos delas. Todo mundo olhando. Na frente dos colegas todos. O que será que vão pensar.
Aff.

Cristina Hoyos, a maravilhosa

Cristina Hoyos, a maravilhosa

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