Menos régua individual e mais política

Nesses dias nosso ativismo feminista cibernético anda revirado de debates pouco profícuos. Uma onda de discussões sobre relacionamentos alheios e até lancheiras de merenda escolares tem sido alvo de ataques e problematizações pela rede afora. O que vejo é uma crítica muito mais às mulheres do que aos discursos. Levantar a bandeira de que o “pessoal é político” parece se arvorar do direito de adentrar às vidas alheias com a régua medidora de comportamentos, em nome, claro, da proteção às mulheres.

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Será que o “pessoal é político” transformou-se num passaporte para invadir a janela das casas e ir lá, com um padrão construído pelas próprias julgadoras, dizer que aquela individualidade, circunscrita a uma casa e contexto específicos, representa algo prejudicial a todo um coletivo de mulheres? Me pergunto: isso é ético?

“O pessoal é político” é uma frase muito inspiradora nas minhas militâncias feministas e lésbicas do dia-a-dia, nas quais questiono o cara que assobia quando eu passo na rua, me assumo lésbica onde eu estiver, fazendo da minha luta política também uma luta cotidiana. Mas será que ela me dá o direito de julgar outra mulher? E pior, expô-la? Classificando seu comportamento e julgando seu relacionamento quando essa pessoa, no seu trânsito cotidiano, está simplesmente vivendo? E está vivendo sem que seu comportamento fira ninguém, quiça ela mesma?

Em primeiro lugar, o pessoal é político sim, sempre será, mas expor uma mulher apenas para fazer inferências sobre sua vida pessoal é desconsiderar qualquer forma de respeito à sua individualidade. Às suas escolhas, inclusive. Mesmo mulheres que sofrem agressão muitas vezes não conseguem se expor, por isso prevemos uma série de proteções a essas mulheres, que devem ser acolhidas e preservadas. O pessoal ser político não significa que você pode decidir a vida da outra como se fosse a sua, muito menos presumir o que ela vive.

Pensar o político significa pensar o estrutural e não o pessoal, caso a caso. A vida sempre escapará às normas. Sempre haverá exceções, sempre haverá casos não previstos, sempre haverá pessoas e situações que nos farão interpretar tudo diferente.

Porém, estruturalmente como podemos ajudar e amparar mulheres que sofrem violência? Podemos repensar a Lei Maria da Penha e sua aplicabilidade. Como se caracteriza uma agressão? Como ampliamos a proteção e o acesso da mulher a justiça? Tem tanto para melhorar. Mas, conformem-se: tem mulher que não será e não quer ser salva pelo feminismo. Assim como há outra mulher que está bem feliz numa relação que você pode considerar abusiva apenas por ser com um homem mais velho.

Porque não adianta bater nos machos todos e querer traçar normas para os relacionamentos: homem mais velho abusa de menina mais nova. Mas né? Homem mais novo abusa de mulher mais velha? Sim. Homem de todas as idades pode abusar de mulher de todas as idades e de todas as formas? Sim, infelizmente. E há também mulheres abusadoras. A agressão sexual a crianças é algo que precisa ser pautado, bem como a dificuldade de se punir homens pela Lei Maria da Penha em casos de violência moral e patrimonial, tão difícil de ser comprovada. Também precisamos pensar em outras soluções para a questão da violência contra a mulher, que foquem em mais educação e menos punitivismo. Essa pauta feminista anda tão apagada.

O pessoal pode ser político, mas discutir o político não é discutir a vida alheia em sua intimidade quando a pessoa alvo da discussão claramente não quer ser pauta de ninguém.

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