O outro sapatinho de cristal

As afirmações são três, assim na sequência. Leiam devagar pra não tomar um susto.

Eu adoro desenhos da Disney;
Eu adoro desenhos “de princesa” da Disney;
Dentre esses, meu favorito é, sem nenhuma dúvida, Cinderela.

Aliás, vi outro dia o filme “Cinderela” do Kenneth Branagh, e fiquei triste por não poder dizer “adorei” – só que não pude. O filme é uma refilmagem que cola no desenho, e, no pouco que difere, o desenho (de 1950!) é melhor. Vamos a ele e a alguns dos motivos pelos quais gosto tanto dele.

Cinderela é dona do próprio nariz. A gente chama de filme “de princesa”, mas na verdade Cinderela é filha de um senhor que casa em segundas núpcias com a malvada madrasta e, quando ele morre, ela fica à mercê da madrasta e de suas filhas. Dorme num quartinho isolado, é obrigada a cuidar da casa inteira, das roupas das três, da comida. Ela é a única “empregada” da casa. Uma vida horrível, parece. No entanto, as cenas com Cinderela não são cenas tristes, muito pelo contrário: ela aparece cantando e conversando com os passarinhos, com o cachorro Bruno, com o gato Lúcifer (o gato da madrasta, preguiçoso e cruel, de pequenos olhos amarelos), com os ratinhos. Uma pessoa solar, alegre, que leva a vida da melhor maneira possível. Que não é submissa à madrasta, que acha as duas irmãs Anastácia e Drizela o fim da feira, fica evidente. Ela tem que obedecer, é certo, mas seu espírito permanece intocado. Não é humilde, não pede nada, reclama baixinho “já vou, já vou”, quando toca o sininho do café da manhã das três.

Cinderela é desenrolada. Quando ouve o anúncio do baile no palácio, para todas as moças solteiras do reino, enfia na cabeça que vai. A madrasta, em vez de proibir, dá-lhe todo tipo de tarefa antes do baile: limpar a casa, lavar as cortinas, ajudar as irmãs. Se ela conseguir fazer aquilo tudo, diz, ela poderá ir ao baile. Cinderela bota a mão na massa, mas não descuida do vestido de baile: um vestido que foi da mãe, que ela pretende usar, embora esteja meio antiguinho. Nessa hora, seus amigos bichinhos – os ratinhos, os passarinhos – resolvem ajudar e reformam o vestido usando uma fita desprezada por uma das irmãs, cortando e costurando em conjunto, e completam o traje com um colar jogado fora pela outra. Ela tem ajuda, sim, mas quem começa esse processo é ela, mostrando o vestido para os animaizinhos e contando como gostaria de ir ao baile. E a madrasta, que tinha dito que “se” ela fizesse tudo poderia ir, quase cede: até que vê os adereços que eram das suas filhas em Cinderela, e sutilmente chama a atenção delas para isso. Com o resultado imaginado: as duas destroem a roupa da moça, rasgando e arrancando pedaços. Cinderela é vencida, mas é pela traição da madrasta.

ratinhos

A fada madrinha dá um apoio. A fada madrinha, que ela até então não conhecia, aparece para remediar a situação, depois que tudo parece perdido. Dá vestido, carruagem, equipagem: mas não garante mais nada. Ela é que tem que ir, que tem que conquistar o príncipe, e à meia-noite tudo acaba. A magia só vai até certo ponto, e muito ainda há por fazer. É Cinderela mesma que dança e que passeia com o príncipe, e quase esquece das badaladas da meia-noite. Quanto ao príncipe, ele fica, bem, encantado. Ela foge e deixa o sapatinho de cristal para trás.

O sapatinho e seu par. Na última parte da história, o príncipe manda fazer uma busca no reino todo pela dona do sapatinho. Cinderela suspira pela casa, e a madrinha começa a intuir o que foi que aconteceu, embora não saiba como. E trama para prendê-la no quartinho lá em cima, quando o grão-duque chega com a missão de experimentar o sapatinho no pé das moças solteiras. Mais uma vez, os bichinhos amigos são providenciais: roubam a chave do quartinho do bolso da madrasta e, com muito custo, carregam-na escada acima até conseguir passá-la para Cinderela. Esta corre e chega bem a tempo: a madrasta má tenta convencer o grão-duque que ela não é ninguém, mas como ele parece decidido a deixá-la experimentar o sapatinho, põe uma bengala traiçoeira no seu caminho. Ele cai e espatifa o sapatinho de cristal. De novo, Cinderela tem a solução: ela tira do bolso o outro sapatinho. Esse é o que ela experimenta, cabe perfeitamente, e, bom, o final da história vocês sabem.

Agora me digam: Cinderela teve ou não teve um papel ativo na história toda?

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4 ideias sobre “O outro sapatinho de cristal

  1. Teve um papel ativo sim! Como diz a antropologa Veena Das, embora as mulheres estejam atoladas nas construções partriarcais, suas posições de sujeitos não são completamente determinadas por essas contruções, mostrando que os paradigmas culturais não são completamente gravadas no eu. Cinderela cria um subtexto ancorado nos textos dominantes. Cinderela torna-se sujeito a partir da experiência de sujeição. Ela realiza relações com os bichinhos a sombra da dominação da madrasta. Uma solidariedade forjada que a ajudou a escapar e realizar o que ela queria. Aurora teve um trabalho paciente de transgressão. Cinderela é mara!

  2. Quando meu filho mais velho nasceu, minha mãe deu de presente pra ele o dvd da Branca Neve. Na hora que entregou, acho que acabou ficando sem graça e.ficou cheia de justificativa: que ela adorava demais o filme, que foi o primeiro que ela viu no cinema etc acho que ficou constrangida por estar dando um filme de princesa pro meu filho. E eu olhei pra ela e nem falei nada. Só olhei e ri. Achei tudo lindo, inclusive e principalmente por ela estar dando um filme de princesa pra ele. Achei cheio de significados bacanas. <3

  3. Não poder ter certos protagonismos é muito diferente de não querer ter ou de não fazer o possível para protagonizar o que está ao seu alcance.
    Texto muito bacana!!!!!

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