Sete Vidas, uma novela de gente madura e analisada

Cresci sendo noveleira. Madrinha assistia a todas as novelas do dia, e eu junto. A TV formou parte do meu ser, e digo que foi mais para o bem que para o mal. Lembro até hoje de Gabriela catando aquela pipa trepada no telhado: eu devia ter uns 6 anos.

Amo quando tem novela boa pra ver. Mas tudo ok quando uma novela é ruim, porque continua tendo outras em algum lugar. A novela ruim da vez, e olha que prometia ser ótima, é Babilônia. A novela delícia é Sete Vidas. No meio, de recheio a conferir, temos I Love Paraisópolis (Isso ficando só nas da Globo. Porque tem as da Record também).

ligia-miguel-e-joaquim

Mas queria falar é da minha paixão: Sete Vidas, aka Sete Filhos de Amyr Klink. Ao assistir a novela, me lembrei primeiramente de uma fala de Nora Ephron nos extras do DVD de Harry & Sally. Era mais ou menos isso: a comédia romântica cristã tem o conflito baseado no externo – alguém ou algo que impede o casal de ficar junto. Já na comédia romântica judaica, o que impede o casal de ficar junto são as neuroses de cada um deles. Daí que não temos mais vilões bolando mirabolantes planos do Cebolinha para sabotar o amor dos pombinhos. Basta uma palavra errada, um atraso, um esquecimento, enfim, a vida como ela é, e está estabelecido o conflito, os rompimentos, o vai e vem. E é disso que é feita Sete Vidas.

Aliás, Sete Vidas me lembra mesmo Harry & Sally, um dos meus filmes favoritos. É uma novela de muitos diálogos, não longos e intermináveis, mas dinâmicos e variados. No twitter é chamada de “novela da DR”. Mas, novamente, a novela usa a matéria-prima da vida: conversas. Conversa sobre nós mesmos, dúvidas, medos, possibilidades. O que fazemos todo dia no bar, no inbox, no whatsapp.

Sete Vidas é uma novela de gente analisada. Não basta uma das mais encantadoras personagens ser uma terapeuta em conflito: as boas pessoas dali, aquelas com quem a gente se identifica, são capazes de analisarem si mesmas, seus sentimentos, os dos outros, voltarem atrás, se perdoarem, perdoarem o outro, mudarem, terem empatia. Não é isso que faz de uma pessoa uma pessoa boa? Um ser bacana? Ser alguém sempre em reconstrução?

Uma das pessoas mais bacanas é a Esther, personagem da Regina Duarte, lésbica, viúva e mãe dos gêmeos gerados pela doação de Miguel.  A capacidade de analisar a si mesmo nos faz sermos pessoas maduras e capazes de rir de nós mesmos, e isso é algo que Esther faz com maestria e leveza.

regina-duarte-lesbica

A novela tem  quase que só personagens brancas e de classe média ou alta, na sua maioria, coisa que incomodou bastante no início da novela: mas a falta de diversidade racial e social foi amenizada com a chegada da Esther e sua amizade com a empregada da filho, Graça, e o filho desta, Carlito. O núcleo gerou cenas de ótimo conteúdo sobre discriminação social e racial, sem a cara de textão ou propaganda do MEC – ao contrário do que acontece frequentemente com a personagem de Fernanda Montenegro em Babilônia.

Por último, acho que a novela coloca como mocinha, não Júlia, nos seus 20 e poucos anos e seu amor por Pedro (larga dele fica com o Felipe!), e sim uma personagem que é mais próxima da telespectadora:  Lígia  e seus quarenta e algo e seu amor pelo arredio Miguel, aquele que foge até do laço do cadarço do sapato, ao que parece.  Lígia é uma mulher madura, que ama com todo o coração, mas tem carreira, filho, mãe chata, irmã, amiga que pisa na bola mas que é gente e ama e por aí vai.  É classe média, tá fechando as conta no final do mês, de boas. Mas, novela tem que sonhar ao menos um pouco, né?

E é assim que me dou conta que que ao menos que a trama seja muito dinâmica, bem dirigida, os atores bem escalados, estejam bem no papel, a trama bem amarrada, como Cheias de Charme e Avenida Brasil, não tenho mais saco praquela coisa muito fantasia de vilão maluco sabotando tudo com planos mirabolantes. Torço por mais novelas humanas com pés no chão e que, na próxima incluam mais negros, negras e suburbanos, enfim, diversidade.

1530527_10153332324402836_4634871849676362660_n

(todo mundo madurinho e analisado agora?)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

8 ideias sobre “Sete Vidas, uma novela de gente madura e analisada

    • Realmente a novela Sete Vidas, foi a melhor ultimamente que assistí Maravilhosa, cheia de conteúdo, paisagens lindas, diálogos inteligentes, gente bonita, enfim boa em todos os sentidos e pra família toda assistir A mim agradou muito e fêz um bem enorme pra minha alma!

  1. Pingback: As mocinhas que amamos, ou não | Biscate Social Club

  2. Pingback: O amor que não precisa ter nome | Biscate Social Club

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *