Sobre o Lugar da Rola na Utopia

Esse post é para dizer duas coisas: 1. Não tá de boa alguém mandar outro alguém procurar uma rola e 2. Não é preciso jogar fora o bebê com a água da bacia, os dedos com os anéis, ou seja, repudiar tudo porque alguém errou (errou feio, errou rude).

Quanto à rola, deixo de partida: eu gosto. É bom, divertido, dá prazer, etc. Mas, até onde se sabe, não tem efeitos de reparação de caráter, não redime comportamentos inaceitáveis, não é cura para homofobia nem para nenhum outro tipo de preconceito. Não é legítimo, desejável ou aceitável mandar alguém procurar uma rola, aliás não é legítimo, desejável ou aceitável, em qualquer situação, insinuarmos que a pessoa de quem divergimos age de maneira A ou B por falta de sexo. Essa é uma argumentação machista que tem sido usada reiteradamente contra as feministas, inclusive (mal-amada, mal-comida, e daí ladeira abaixo).

Como disse o Pedro: “nenhum problema de que se tenha notícia (quanto mais homofobia e machismo!) é causado por “falta de rola”. O tal argumento, antes, é que é efeito dos referidos males. Rolas abundam na humanidade, e ouso apontar que quanto mais rola, mais problema. A ofensa via de regra é proferida pelo projeto de machinho – daria pra se traduzir em: você (o feminino, a falta, a fraqueza) é o problema e eu (o falo, o patriarca, o poder) sou a solução. Desnecessário dizer que a frase “vai procurar uma rola, homofóbico” traz consigo no mínimo um ato falho. Uma contradição que prejudica o argumento. Óbvio, não sou neutro: entre Boechat e Malafaia, fecharia com o primeiro. Grandes merdas: fecharia até com o Diabo, mil vezes, antes daquele picareta execrável. Mas eu não preciso fechar com ninguém. Sobretudo não preciso fingir que tudo que se diga ou faça contra quem mais se abomina seja aceitável.”

A gente vive em uma sociedade que naturaliza discursivamente preconceitos. É um tal de “chupa, filho da puta, baitola, mal-comida, vá tomar no cu, histérica, vai dar meio dia de cu, biscate, vadia”, e outras coisas assim. Não tem nada de mau em alguém fazer sexo oral. Nem em ser filho de uma prostituta. Nem em trabalhar como prostituta, aliás. Não tem nenhum problema em fazer sexo anal, pode ser uma delícia, seja homem ou mulher. Não tem nada de errado em apresentar uma neurose. Mas tem muita coisa errada em uma sociedade que usa esses termos como ofensa. Tem muita coisa errada em tentar minimizar alguém insinuando, por exemplo, que ele deveria manter práticas homossexuais, como se a pessoa que tivesse esse comportamento fosse menos digno de escuta e respeito. A banalização displicente desse tipo de fala traz, em seu subtexto, a convicção de que algumas pessoas são menos dignas de cuidado e proteção que outras. E a gente, que milita por um mundo menos excludente, tamos ali, dia a dia, dizendo que não pode, não é legal, não, não, não, não. Não pode no estádio de futebol, não pode na mesa de bar, não pode na entrevista de emprego e não, não pode na rede de televisão mesmo contra um político execrável. E isso não significa que estou defendendo sermos complacentes com os políticos execráveis. É possível ser incisivo, direto, firme sem ser homofóbico e sexista. Passar a mão na cabeça, relevar, dizer que é tempestade em copo d´água, isso tudo só mostra como ainda somos adeptos da lógica os fins justificam os meios e/ou aos amigos, os favores; aos inimigos, a força da lei. A Renata Lins alertou aqui: xingamentos moldam ideias, sentimentos, vamos desnaturalizar o pensamento e a reação. Vamos?

10514692_688712994499967_3556146592688112508_n

Mas então, Luciana, vamos levantar a bandeira de homofóbico e jogar pedra no moço que mandou o outro moço procurar uma rola? Olha, eu vejo bem muito filme esquemático, tipo faroeste. É lá eu exercito o joguinho bem X mal. Na vida cá fora, um pouco mais de complexidade cai bem, acho eu. Para além do pensamento e das reações binárias tem um monte de outros caminhos. Como, por exemplo, o que prefiro: achar super legal o resto da conversa e dizer, “mas, opa, isso da rola não”. Sexo é bom consentido e por prazer, não forçado como resposta pra problemas de comportamento e ideologia. Nós e o moço da tv vivemos nessa sociedade. Fomos formados por ela. Isso implica em termos arraigados vários preconceitos. Isso significa que mesmo estando do lado das causas mais justas, mesmo militando contra a discriminação, mesmo querendo construir uma sociedade mais inclusiva e igualitária, a gente vai se valer, vez ou outra, de termos, comportamentos, análises que reproduzem justamente o que queremos desconstruir. Eu super entendo que a gente escorregue. Eu escorrego que só (tenho joelhos ralados pra provar). Mas a gente só sai do lugar reconhecendo os desacertos e fazendo melhor da próxima vez.

A sociedade que a gente quer construir vai sendo construída e determinada pelos meios e ferramentas que a gente usa para alcançá-la. No meu horizonte tem gozo e riso e aceitação. No meu horizonte tem rola sim. Tem gente procurando e achando rola, sim. Tem gente procurando e achando buceta, sim. Tem gente se esbaldando em rolas e bucetas, sim, sim, sim. Não como ofensa. Não como xingamento. Não para horror e espanto alheio. Como festa. E não, eu não acredito que é possível chegar aí sendo complacente com a reprodução de preconceitos, mesmo vindo de quem “tá do nosso lado”. Também não acredito que a gente chegue com a catalogação estática de pessoas (etiquetas com “homofóbico”, “racista”, “classista”, “libfem”) nem alijando aliados. A gente chega é afinando o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, claro, com as rolas procuradas, aproveitadas, gozadas, por livre escolha e alegre consentimento.

15592_832980016739930_1577347550655525359_n

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

23 ideias sobre “Sobre o Lugar da Rola na Utopia

  1. Vim comentar só pra deixar aqui registrado, não só o quanto eu concordo com o texto, mas também como me espanta a dificuldade de perceberem como é homofóbico e machista mandar alguém procurar uma rola. Por qualquer motivo que seja. Mandar chupar o pau. Por qualquer motivo que seja. Dois errados não fazem um certo, uma coisa não anula a outra, e se tem algo que me faz avançar é justamente uma utopia em que isso não precise mais ser discutido, por óbvio e ululante.
    Infelizmente, parece que ainda tá bem longe.

    • exatamente por ser homofóbico que ele falou isso pra ele, já que ele gosta tanto de fiscalizar a sexualidade alheia, foi a melhor coisa que já vi alguém fazer com esses cagaregras destes pastores, essa coisa do que é certo ou errado não se aplica a caras como esse malafaia

      • vai me desculpar, Pedro, mas é justamente aí que divergimos. Se não concordo que se diga isso pra alguns, não concordo que se diga isso pra todo mundo.Isso de levantar as noções de certo e errado em alguns casos específicos me lembra, demais, a coisa dos direitos humanos para humanos direitos (que é justamente uma das coisas que combatemos, não é?).Além disso, o que importa não é só pra onde o discurso vai, mas de onde ele vem. E a frase “vai procurar uma rola” é machista e homofóbica. E a reiterarmos e legitimarmos é reiterar o que ela carrega.

      • não, não foi. Ele falou isso pra ele com base na premissa “todo homofóbico é um gay enrustido”. Que não só é equivocada como é nociva.
        Falou isso pra ele do alto da sua superioridade de homem hétero.
        E, sinto muito, não tenho grandes ilusões sobre a fala do Boechat, que não vai fazer nem cosquinha no sujeito. Queria desopilar o fígado? Dar um passa-fora no sujeito? Tudo muito bem. Eu preferiria que não usasse esse tipo de expressão.

      • Não, ele não disse isso. Poderia ter dito, aliás. Ele disse outra coisa e acho que devemos ser responsáveis pelo que dizemos.

  2. Infeliz escolha de palavras e termos do Boechat. Poderia ter usado um “VAI TE À MERDA” que teria gerado o mesmo resultado não teria caído na reprodução de sexismo, homofobia e falocentrismo. Acho que essa questão deve ser levantada, discutida e desconstruída sem que caiamos na falácia retórica de acusar quem está fazendo isso de ser “chato politicamente correto”. Mas isso tem que ocorrer sem se perder a verdadeira intenção do Boechat, apesar do deslize em se expressar. Intenção que era colocar o Malafaia no seu devido lugar, cala-lo, denuncia-lo publicamente e falar abertamente de toda a imundície que ele faz e representa. E isso ele conseguiu com louvor! Amém!
    Apesar disso, não dá pra endeusar o Boechat. Ele foi um aliado nessa fala e mesmo assim cometeu um deslize ao fazer esse papel. Não dá pra endeusa-lo não só pelo deslize linguístico mas pq ele tem todo um histórico neo liberal, direitista e conservador no currículo.

    • Concordamos, Felipe e por concordarmos é que o texto tem aquela segunda parte, sobre não jogar fora o bebê com a água do banho e tal. É preciso reconhecer os méritos, que existiram, sem consentir com a reprodução do que queremos desconstruir, não é? beijinhos biscates

  3. NÃO CONCORDO com esse texto enorme e vazio. Quando ele mandou o cara procurar uma rola, ele quis dizer duas coisas: Quem transa é feliz e não enche o saco, seja homem ou mulher, quem adora cuidar da vida dos outros é gente que não trepa. E a outra coisa que ele quis dizer foi: esse ódio contra os gays PODE SER uma homossexualidade enrustida, isso é bem estudado e comprovado por psicólogos. Foi um recado: “se aceita logo que dói menos”. Minha opinião. E outra, se fosse homofobia como trata o texto, não teria tanto gay apoiando o jornalista! Eles adoraram, eles se sentiram vingados e representados. Pelo menos uma voz se levantou contra esse BABACA arrogante do Silas. Cadê um texto enorme falando da desgraça que esse malafaia é para a sociedade. Me poupem!

    • Fábio, obrigada por vir gritar comigo. Quanto ao texto enorme falando não do Malafaia mas das políticas e discursos de retrocesso, preconceito, reacionarismo, (não personalizamos inimigos, aqui no clube falamos de atitudes, políticas, discursos… aliás, este texto não +e sobre o jornalista, como você deve ter reparado), bom, é fácil encontrar, é só ler o resto do blog.

      Ah, a propósito, sou psicóloga.

    • Fabio, um homem que se identifica como heterossexual foi mandado procurar uma rola, me diz qual o motivo de não ter sido mandado procurar uma boceta. Tenho em mente que é feliz quem transa, mas não é feliz quem transa com uma rola quando não a quer e este é o caso de qualquer um que se diz heterossexual.
      E se “esse ódio à gays pode ser uma homossexualidade enrustida tal como é comprovada por psicólogos” não consigo entender como o Boechat pode querer dizer que um sujeito é ou pode ser gay já que o Boechat não é psicólogo e mesmo que fosse ele não está fazendo o acompanhamento de Malafaia em setting terapêutico. E não importa se o que o Boechat queria dizer era qualquer coisa que não fosse homofóbica, pois dizer “vá procurar uma rola” é homofobia, já que as palavras, as frases, as idéias tem um contexto e um sentido ideológico que precede o que eu, o que você, o que Boechat, o que Malafaia queira dizer. Só mais um detalhe: sou lésbica e não concordo com o uso de termos machistas, homofóbicos para combater opressões.

  4. Budameda, a cumpanhera escreveu um tratado…
    Caraiamba, é preciso ler mais de uma vez pra captar os tiros dados em todas as direções.

    Vou reler. Mas, caríssima, tenha a certeza de que isso daí dá um simpósio, quinemqui dizia a cronista Carmélia M. de Soua nos anos 1960/70, pelaí…De qualquer forma, eu sou Boechat, que tem se revelado um comentarista do dia a dia como nenhum na máquina de fazer doido – diria o saudoso Stanislaw Ponte Preta/Sergio Porto ( um cara que precisa ser redescoberto).

    • Olá, Oswaldo, bem vindo ao clubinho… o texto não pretendeu ser contra o Boechat, magina. O texto fala de um discurso que ele reproduziu – como somos todos passíveis de reproduzir – e que, na minha opinião, é um discurso ao qual devemos estar atentos, refletir e tentar não legitimar. Isso, imagino eu, não nos afasta da luta contra as ações e palavras do Malafaia.

  5. A reflexão nos mostra que devemos repensar nossas formas de luta contra os fundamentalismo e as homofobias. É uma des-construção histórica e quem sabe, epistemológica. Digo isso porque nas minhas brincadeiras de criança, por exemplo, a pior coisa que um menino poderia ser chamado era de “mulherzinha”. Precisamos crescer para ser mais gente. Gratidão por partilhar!

  6. Penso que capitanear este momento tão triste de preconceito religiosos. Um pastor de certa denominação religiosa que versa num púpito de uma igreja recém inventada ocupa inúmeras cabeças não pensantes de um certo morro carioca e incita a violência contra uma religião secular de raízes africanas a ponto do líder traficante do morro proibir seus moradores do morro de trajarem branco, fechar os terreiros, expulsar os pais de santo e incentivar os irmãos da fé e moradores a literalmente linchar apedrejando quem ousa ir para outro terreiro em outro morro. Tudo por intolerância religiosa. Ou o garoto de 14 anos que foi espancado até a morte por ser homossexual.
    Penso que você não entendeu a ironia do Boechat. Quando ele faz um comentário machista e misógino ele está enfraquecendo no discurso e marcando a brasa quente condenando-o a uma espécie de bullying um pastor que fala o que quer o tempo todo e ninguém o freia, nem você, nem eu. Ou você acha que mantras tibetanos vão impedir aquele homem de continuar a disseminar ódio, preconceito e explorar milhões de brasileiros?
    A ironia é esta utilizar o mesmo viés para que ele sinta o que destila. Uma coisa é mandar um pastor machista, héterossexual, fundamentalista, preconceituoso, defensor da “moral e dos bons costumes” procurar uma rola. Outra bem diferente, horrorosa e misógina é mandar uma mulher por ser um homem machista, inseguro e literalmente babaca dizer algo tão sem sentido só por pura auto afirmação.
    Portanto sim Malafaia vai procurar uma rola, e que seja dito nas suas viagens de avião, nas suas filas de banco, nos seus almoços de domingo. Para que com o tempo você aprenda na própria pele o que é sofrer preconceito e que humildade e sabedoria é necessário a todos nós.

    • Eu entendi, Iam, a fala do jornalista. Que, inclusive não foi irônica já que ironia (diconário michaelis) é “figura de linguagem com que se diz o contrário do que as palavras significam”. Quando a gente faz um comentário machista, seja quem for, seja “contra” quem for, a gente não tá enfraquecendo o machismo, a gente está reforçando e validando.

      É disso que o post fala. NÃO se trata do Malafaia. NÃO se trata do Boechat (inclusive tem toda uma segunda parte do texto indicando a pertinência do resto da fala dele). O texto é uma pergunta: porque achamos legítimo usarmos esse tipo de xingamento?

      Não se trata do Malafaia aprender a sofrer. Isso não resolve o problema de misoginia, machismo e homofobia na nossa sociedade. Se trata de construirmos um discurso onde o preconceito não seja legitimado, onde o preconceito seja escorraçado e que esse discurso qualifique e construa novas práticas e vínculos. A idéia de que certos xingamentos podem ser usados para ofender alguns e não para outros incorre em dois erros: a) não se questiona porque aquela expressão é lida como ofensiva e b) se aproxima demais da ideia de direitos humanos para humanos direitos, por hierarquizar pessoas.

  7. Concordo com o texto, muito bem argumentado. Mas discordo da questão que Boechat foi machista ou homofóbico ao mandar Malafaia procurar uma rola. Não interpretei sua fala como “sua bicha vai procurar uma piroca”, oq sim seria homofóbico. Ouvi mais no sentido “para de se preocupar com a rola alheia e vai atrás da sua”. Pode-se argumentar que ele foi infantil em considerar que Malafaia precisa de uma rola por ser reprimido (quem somos nós para saber da intimidade sexual alheia?). Mas acho que foi uma frase apropriadamente dita. Se Malafaia não se interessa numa rola, ao menos deixa os outros procurarem as suas em paz.

  8. Discordo do texto!
    Boechat não usou a expressão de forma homofóbica. Ele tinha o objetivo de ofender o pastor. Para ofender alguém essa pessoa precisa achar a sua expressão ofensiva, caso contrario não é uma ofensa. Obviamente não há nada mais ofensivo a um pastor anti-gay do que ser chamado de gay.
    Ou seja. Homofóbico é o pastor que considera ‘chupar uma rola’ uma ofensa!
    Em uma sociedade como a da Grécia antiga, onde o homossexualismo era considerado normal, provavelmente ninguém consideraria ‘chupar uma rola’ uma ofensa.

    E repito. Se seu objetivo é ofender, a outra pessoa precisa considerar a palavra ou expressão uma ofensa!

    • Felipe, divergimos. Você diz que pra uma expressão ser ofensiva tem que ser ofensiva para o receptor. Eu digo que ela tem que ser ofensiva para o emissor (e para a sociedade de maneira geral). Porque quando a gente tá dirigindo, alguém faz uma barbeiragem, a gente não desce do carro e vai lá perguntar: e aí, irmão, que termos você considera ofensivo pra eu te xingar? A gente usa o que a gente acha que minimiza e ofende o outro.

      Aí, além disso, tenho duas observações: na Grécia não existia homossexualidade como a conhecemos hoje. Sexo entre dois homens adultos era, sim, alvo de condenação, não uma coisa “normal”. O que existia era sexo entre homens mais velhos e mais jovens, como parte da formação do jovem. A segunda observação é que o texto NÃO discute Boechat nem Malafaia, mas o contexto sócio-cultural que faz com que expressões como a que foi utilizada seja considerada ofensa.

  9. Há quem chame isso de ‘banalização do mal’. Transformar atitudes e comportamentos nocivos através das palavras! Mandar quem tomar no cu e até dizer “ô viado” com intuito de brincadeira no fim é depreciativo, quer queria quer não! Pena ser isso um comportamento talhado nas mais ‘inocentes’ das atitudes, como mostrar o dedo para seus amigos, simbolizando, a tão malfalada rola. Eu não lavo minhas mãos disso tudo… Mas juro que tô tentando!
    Parabéns pelo texto e pela análise =]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *