Uma carta de quase vento

gatoAqui os dias estão calmos amiga, você bem sabe o que isso quer dizer. A calmaria faz vento nos meus ouvidos. Meu cavalo canta uma cantiga que ainda não sei decifrar. Ele olha tudo com estranheza e paz na beira da lagoa. As patas molhadas de lama fresca, uma saciedade de barriga cheia e uma ansiedade sobre o que vem depois. O que vem depois da saciedade? Acho que gosto de sentir fome, invento a fome, mesmo quando não cabe mais nada dentro. Tenho que esvaziar. Então vou me esvaziando sem abrir as mãos, tentando fazer vento e tempestade sem mexer nas águas plácidas em que me banho sem pressa, tentando mergulhar sem fazer onda nem desarranjo.

O que vem depois da desse lugar calmo onde nada escapa? Não sei amiga, tenho fracassado em buscar conflitos. Respiro nos exercícios de yoga e acompanho o gato na beira da janela. Deixo ele perigosamente se acomodar no parapeito, ali, no risco, no vão do quase pulo. Ele se derrama tão macio no espaço do quase, namorando a vertigem lá fora.  Observo o gato, os olhos atentos, a paixão de querer ir sem sair do lugar. As horas passam, ele não se mexe, eu corro o risco com ele, eu contemplo o risco. Ele não pula, aqui dentro é quente e ele tem medo. Eu vou lá e o abraço por trás, tiro seu corpo com cuidado, e num consolo suspiramos juntos, de volta a calmaria.

Podia ter machucado, podia ter morte, podia ter nunca mais, podia ser tudo diferente. Tava tão vivo. Mas a gente contempla da janela de novo, aliso seus pelos e ele me lambe, ele é um gato que lambe com vontade de sal. Essa vontade que corre sempre por dentro, essa vontade de mar que a gente tem dentro e que nunca cessa. E essa sede de mar é uma sede pra sempre amiga, é uma sede da gente toda. Olho o gato de novo, é ele que me ensina, é ele que me conta das belezas desse tempo de contemplar e aprender a ficar no quente. De fazer pouca onda e pouco barulho, de deslizar pequena sem grandes alardes. O tempo é de uma paz estranha que me rasga por dentro e eu não sei.

Escuto a Angela Rorô, ela toca de novo e de novo, e eu vou me deixando embriagar pela cena do escândalo, às vezes no quente faz frio, é estranho fazer frio em tanto conforto. “o grande escândalo sou eu, aqui, só”. Vou rompendo as manhãs amiga, vou vivendo essa vida tão certa de que amanhã é mais um dia de chá quente com aquele bolo que parece casa de mãe, aqueles dias que meus conflitos se reinventam e não encontram vazão, não tenho mais explosões para me ferir, não acho mais os fósforos, eu tento, risco faíscas, mas nada amiga, não sai fogo. E que bom que não sai fogo, porque eu já cansei de tanto joelho ralado, eu só preciso aprender. E então eu vou indo, eu vou tentando reinventar, eu tenho que aprender a reinventar. Sempre.

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Uma ideia sobre “Uma carta de quase vento

  1. “Vou rompendo as manhãs amiga, vou vivendo essa vida tão certa de que amanhã é mais um dia de chá quente com aquele bolo que parece casa de mãe, aqueles dias que meus conflitos se reinventam e não encontram vazão, não tenho mais explosões para me ferir, não acho mais os fósforos, eu tento, risco faíscas, mas nada amiga, não sai fogo.” e o mais cortante pra mim, não sapi fogo, não, não sai nada!

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