Canção Para Um Moço Triste

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

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Moço,

você diz que te falta coragem. Eu digo: você é tão bonito. Você diz que nunca poderia. Eu digo: eu preciso de uma noite, só mais uma noite.

Eu lembro, moço, da sua cara de espanto quando eu te tirei daquele bar com a força do pensamento. Ordenei: só saio daqui com esse moço do lado. E você é bem educado, de boa família. Fala baixo, não diz um palavrão sequer, usa os talheres que é uma beleza, acendeu o meu cigarro e segurou forte minha mão quando atravessamos a rua cheia de carros em direção ao motel mais fuleiro do bairro. E eu, enfim, eu tenho Madureira no peito, passei minha infância xingando o juiz do jogo, os jurados na Sapucaí, é claro que eu achava bem do caralho, um troço assim estupendamente foda o moço mais bonito do bar entrelaçar os dedos nos meus dedos e olhar lá no fundo do meu olho enquanto me espremia num murinho na esquina.

Estávamos numa cidade branca, e claro, percebi todas as correntes que você teve que quebrar para levantar daquela cadeira e sair daquele bar sob os olhares desaprovadores dos seus limpíssimos e amáveis amigos.

Caguei pra eles. Só estou de passagem.

Eu não disse o meu nome, mas não por nada, não disse o meu nome pois esqueci onde estava, o que fazia, onde era minha casa quando vi você dar um passo na minha direção.

Você não disse seu nome também, ali todo aristocrático, afinal, posto que se me faltam boas maneiras, sou versada nas vicissitudes da putaria. E como Julia Roberts, na cena do jantar em Pretty Woman, você foi indo assim, me acompanhando, observando o que era permitido.

Mas eu não proibi nada de nada afinal.

Ficou ali, religioso entre as minhas pernas, descansou o rosto na minha buceta e começou tudo de novo.

Ficou ali profanando nosso leito nupcial pago a módicos trinta reais falando de amor. Ficou ali sorrindo com seus dentes branquíssimos de menino bem nascido, me mordendo com todos esses dentes esculpidos com muita curaprox, sensodine e aparelho adolescente. Certeza que você foi um sucesso na escola particular.

Ficou ali prometendo me comer sempre que eu tivesse vontade, se oferecendo como um anúncio de pizza hut num banner de um site de notícias, mas que mal há em publicidade de pizza se você está com fome mesmo?, parece uma boa ideia.

Ficou ali dormindo a cabeça lourinha na minha barriga. E eu olhando o Moço Mais Triste que passou pela minha cama.

Essa sua cidade branquíssima cheia de névoa e neve te faz mal, moço. Faz ter ideias bobas do tipo estar preso, amarrado, algemado num tipo de vida bem morninha e aconchegante.

Moço, se um dia você vier me visitar no Rio de Janeiro, um dia se você sair da cidade transparente, asséptica, tão tão longe, um dia se você desembarcar aqui nas ruas de Copacabana eu te prometo, moço: não te levo para ver o Pão de Açúcar, nem o Cristo, nem o Bonde, nem a Pedra do Arpoador. Você, moço, vai sair daqui como se nunca tivesse pisado os pés nessa terra, vai sair daqui sem ver a luz do sol que nos queima, moço, eu te prometo.

renata corrêa* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

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