Comportas

Por Maíra A., Biscate Convidada
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Às vezes é preciso não se saber para se encontrar. Deixar que as coisas explodam e se quebrem irremediavelmente. O que eu queria mesmo era os seus dedos nos meus cabelos. E mais um dedinho de prosa para arrefecer essa carência. Queria eu, nos meus dias de 365 horas, que você não tivesse entrado tão insuspeito, ou queria mesmo era que não tivesse saído. Mas você ficar é a vida como ela era. É demandar uma resposta que nem eu mesma tenho, porque a resposta antiga já não comporta mais. E eu também não me comporto naquela vida de ontem. O que eu queria mesmo era você lambendo os meus pés, chupando cada um dos meus dedos, subindo a língua morna e úmida pelas minhas coxas, passeando pela minha virilha, até eu não aguentar mais e explodir de tesão, gemendo feito gata no cio. Mas, na verdade, todas as nossas conversas foram imaginárias ou insuficientes. E eu cansei de escalar o muro da indiferença. Tudo não passa de uma noite escura, um vaso quebrado e um coração latejante da promessa que foi aquela noite. A cama já não comporta apenas dois. A vida estilhaçada entrecorta todas as promessas daquele conforto de “casa-marido-cachorro”. Porque a vida de gata no cio é a vida da noite, de quem pula de telhado em telhado, boêmia e vadia, sem eira nem beira nem garantia. De quem vai rondando os espaços ao sabor do vento, que entra pelas narinas enquanto corro, chegando a doer o peito e tontear a cabeça. Enfim, respiro.  O que eu desejo ainda não tem nome. Mas pulo assim mesmo no abismo da noite. Queria mesmo era me enredar no aconchego dos seus braços, mas não consigo parar quieta: é o corpo que explode em festa. Não me sei, apenas me desconfio um bocado. E insisto em não me comportar.

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

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Uma ideia sobre “Comportas

  1. Adorei o texto….Revela bem uma faceta feminina que teima em se esconder por trás de tanto moralismo imposto a nós mulheres. Que o cio possa se manifestar em cada telhado de casa morada.

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