Insone, com a mão no bolso

Por Ana Paula Medeiros*, Biscate Convidada

São três horas da manhã, você me liga
Pra falar coisas que só a gente entende
Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando em nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onde de amor não há quem corte
Oh, meu amor!

Mentira, são quatro horas e eu nem sei por que essa musiquinha idiota veio à minha cabeça. Não acordei com você me ligando e sim com sonhos inquietantes. Não, nada sexy e molhado, quem dera. Só angústia mesmo. A boca seca. Um peso ruim esmagando o peito. Vou fazer xixi, beber água, voltar para a cama, que às seis e meia toca o despertador para o trabalho.

Tic…Tic…Tic…

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Estava tão friozinho e gostoso dormir aí com você. Minha bunda encostada no seu pau, minhas costas no seu peito quente, suas mãos nos meus seios, descuidadas, as pernas pelo meio umas das outras. A bagunça que eu faço nos lençóis, rsrsrs…

O oxi ganhou na Grécia. Li antes de deitar que os líderes europeus já estão se coçando todos. A Merkel e o Hollande já disseram que “o resultado tem que ser respeitado”, outra forma de dizer que não vão respeitar porra nenhuma. Esse arroubo grego podia bem se alastrar pela Baixa Europa e levar de roldão Portugal e Espanha assim, só pra começar. Muito sonho, eu sei. Se pelo menos isso forçar uma negociação melhor com o FMI, em termos menos horrorosos para a população, talvez já seja bom. Não adianta de nada fazer bravata com o cu alheio e não é o nosso que está na reta, né?

Hahahaha, como não, o nosso tá MUITO na reta. Em várias retas. Eu ando tão preocupada. Com tudo. As incertezas políticas, o esgoto fétido do Congresso, os retrocessos na conquista de direitos, as lutas fratricidas cada vez mais acirradas entre grupos que supostamente deveriam estar do mesmo lado. Aí me agarro em pequenas luzes e carinhos e festas. Achei tão lindo o mar de arco-íris, quase toda a minha timeline no feicebuque ficou colorida. Mas acabei não colocando agora o filtro pelo orgulho trans. Devia. Militar em todas as frentes cansa, de vez em quando. Mas essa seletividade me desperta umas culpas. Eu tive uma aluna trans muitos anos atrás. Não lembro o nome dela. Lembro que na pauta estava o nome do documento e eu achava isso estranho. Como tinha pedido para os alunos se apresentarem na primeira aula, saquei logo, pus o nome dela a lápis do lado do nome que estava na pauta e resolvi esse problema. Para mim, era uma aluna. Uma moça. Como todas as outras da sala. Acho tão violento agir de outra forma. Ame-o e deixe-o ser o que ele é.

Eu tenho que levantar praticamente daqui a pouco, devia conseguir dormir.

Tenho que lembrar de pagar o aluguel amanhã. E colocar a roupa na máquina. Depois que eu dispensei a faxineira, as coisas estão meio acumuladas. Ah, passar no mercado também. Não tem uma mísera banana nessa casa, eu fico comendo bobagem. Queria perder uns cinco quilos. Pelo menos.

Mas tem a tese. Eu estou avançando tão lentamente nisso. A um custo enorme. Isso também está me angustiando. É como se eu estivesse muito perto, falta vencer uma pequena parede. Mas ela é de rocha dura e cheia de pontas, eu só tenho as mãos nuas para escavar, raspando pó de pedra com as unhas, sangrando os dedos, ficando exausta com quase nenhum progresso.

Olhos fechados pra te encontrar
Não estou a seu lado, mas posso sonhar…

Tantas contradições pra resolver, entender. Internas. Meus discursos, minhas práticas, os sentimentos, os padrões de comportamento tão arraigados. Que voltam, que empurram, que emperram. Por que é que às vezes é tão difícil viver, respirar, amar?

Um bocejo. Cara, que sono. Eu já estou embaralhando tudo, começo a pensar uma frase que não termina. É boa essa sensação de afundamento, de desligar as conexões aos poucos. Deixei a janela da área aberta. Será que esse barulho é de chuva? Hmmm… tá tão quentinho aqui.

Pííííí pí pí pí… Pííííííí

Maldito despertador.

*AAnaPaulaPBiscatena Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

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