Muito pouco, quase nada

Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza…

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Eu sei de pouquinho, quase nada. Sei a tabuada do nove, a regra das paroxítonas terminadas em ditongo, a fórmula química da água, as capitais do nordeste. Sei de lugarzinhos pra morder: queixo, pontinha da orelha, bunda, ombro, calcanhar. Sei de deitar na rede de dois, mãe e filho, dois amigos, duas irmãs, dois amantes. E balançar, como se o vento fosse abraço. Sei de pouquinho, quase nada: água de coco para desidratação, maracujá pra dormir melhor, beterraba, fígado e feijão pra quem anda fraquinha, manga com leite pra dar susto no antigo. Sei que andar de mão dada sua a mão, mas caber na mão do outro sossega a alma.

Sei de pouco, pouquinho, quase nada: do mar sei que não se bebe a água, que é cemitério bonito, que ensina a resistir no seu vai e vem, que acolhe o doce mas se faz sal, que convida a viagens, pra lá e pra dentro. Do mar, sei poesia. Do fogo, sei que baixo dá sabor e alto dá menino. Ou quase. Da lua, sei que míngua em mim, que brilha na letra do Vinícius e muda de cor na voz de Bethania. Dos ditados, sei que não se põe a mão na cumbuca, não se vai com muita sede ao pote e não se amostra com salto de égua véia. Mas vez ou outra, esqueço. Do sexo sei que sim – se forem dois ou mais querendo, e não – pra quem não quiser. Sei ainda, e compartilho com quem quiser saber, que o riso diminui a cama. Sei que babydoll de nylon combina com você e o abajur cor de carne não voltará a iluminar outras noites iguais. Sei muito pouco, quase nada, mas sei que o medo do ridículo é de se deixar pra trás, ou nós é quem ficamos.

Eu sei de muito pouco, quase nada, que não me dou ao respeito, que sou de todo mundo e todo mundo é de meu também, que sou rodada, rio alto, bebo e falo menos palavrão do que Marisa Monte, dou pra todo mundo mas não dou pra qualquer um. Sei que tenho o corpo da vida que levo e por tanto bem querer a essa, quero bem demais a ele. Sei sambar de ladinho. Sentar no pé da calçada. Beijar de língua. Que sou de Oxum. Sei abrir pernas, peito, caminhos. Do outro, sei a espera. Que o tempo do outro não é o meu, o desejo do outro não é o meu, que o como, quem, onde e quando do outro não tem resposta certa. E que tudo isso dói. E que tudo isso é vivo. E que tudo isso é vida.

Eu sei de muito pouco, quase nada: azeite com alho, queijo e goiabada, mostarda e mel, café com pão, tomate e ervas, farinha e, bom, farinha e a vida. Sei que refogar cebola pede tempo, que feijão pede molho, que carne pede ponto. Que é a estrada que ensina o passo, que lavar a burra é mais que deixar um bicho limpinho, que os pés de barro viram lama. Sei que viver é muito perigoso, mas que sempre há literatura como bálsamo. Ou forró.

Eu sei de pouco, nada, nandinha quase, sei que sou uma biscate qualquer, fácil, corpo desfrutável. Sei que nunca houve uma biscate como Gilda e que há jeitos de subverter a lei da oferta e da procura. Sei do tempo, dos afetos girassóis, que pra não envelhecer a opção é morrer. Sei de receitinhas pra depois do amor e que quando uma biscate sofre bom mesmo é ouvir Maysa. Sei do escurinho, da vida levada nas coxas, do moralismo sem bandeira política, do que não tem graça e se repete, mas sei também de noites porretas, da temperatura certa, das impressões do desejo e de que, ao fim e ao cabo, é divertido, gente! Sei de despedidas, que amar é dar o que não se tem, sei da dor, da culpa, do samba, dos relacionamentos e que as batatas são do vencedor. Sei das perguntas, sei dos espantos, dos labirintos, das máscaras, das escolhas e sei da escrita, de poder dizer: eu, Sardanapalo. Pouco, quase nada, mas me sustenta.

Sei de um nada, pouco, pouquinho: dançar arrochado, dois pra lá, dois pra cá, cheirar cangote, entrelaçar dedos, gemer baixinho, encaixar perna. Sei que é preciso ter o seguro: livro, comida, escuta. Que é preciso, vez ou outra, cair de boca, descer a lenha, bater o pino. Sei do café quente, da água de quartinha, do prato de alumínio, do milho assando na brasa, que eu já fui uma brasa, que minha vó já foi uma brasa, que a vó da minha avó também. Já fomos. Eu que sei de muito pouco, quase nada, sei disso: findamos.

Eu sei de pouquinho, quase nada: no por enquanto, eu vim aqui foi pra vadiar.

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