Sete Vidas e o estreito lugar do masculino

Acabou ontem uma das melhores novelas dos últimos tempos: Sete Vidas, que contava a história de sete irmãos biológicos e do seu pai, o doador anônimo que acabou sendo descoberto e vendo ser construída, em torno de si, uma improvável família.

Na esteira do final da novela, Nilson Xavier publicou um comentário elogioso, falando da produção, dos temas delicados abordados, dos personagens bem construídos. Mas fez a seguinte ressalva:

Aqui cabe apenas uma crítica à autora, algo já percebido em “A Vida da Gente”. Seus dramas são universais e acometem todos os gêneros, mas percebe-se um maior afinco de Lícia ao retratar personagens femininas em detrimento aos masculinos, em sua maioria reconhecidos como fracos, emocionalmente imaturos e/ou dependentes, ou mesmo “bananas”.

Bem, para quem não viu a novela, a primeira observação é que não é da falta de personagens masculinos que ele está falando. Dos sete personagens que acreditavam ser filhos de Miguel  – uma, Julia, depois descobre que na verdade não era -, cinco são homens. Some-se a isso o próprio Miguel, Lauro, seu melhor amigo, Vicente, namorado de Lígia, e seu irmão Arthur, Eriberto e, agora perto do final, Renan. Uma profusão de personagens homens. Do que será que estaria falando Nilson então?

Ele menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? O personagem de Eriberto ainda vai, porque afinal se debate com a própria ideia de masculinidade tradicional, e, a partir de conversas e reflexões sobre si próprio,  acaba se declarando a Renan, mas os outros?

Aliás, assistindo a novela e antes de me deixar encantar completamente pelo Eriberto, me incomodei foi com esse clichezão mais uma vez repetido: se o homem é frágil, sensível, gosta de música clássica, de arte, bem… não é um homem-masculino. E há de ter uma orientação sexual compatível com esses gostos tão pouco de “homem-homem”. (É verdade que à luz desse critério poucos parisienses passariam no teste de homem-homem, mas fazer o quê, é outra cultura. Eles são diferentes, lá pode. E lá vai clichezão. Mas isso é outra conversa ainda. Voltemos).

Nilson Xavier ainda complementa:

Entende-se que a audiência da novela das seis é – em teoria – predominantemente feminina. Mas já que o estilo da autora é naturalista, uma melhor dosagem caberia bem, sem desmerecer nenhum gênero.

Atenção para o termo usado: sem “desmerecer” nenhum gênero, diz o autor. Quer dizer, novamente: personagens masculinos sensíveis, confusos, complexos seriam uma forma de “desmerecer” o gênero, que, afinal, deve ser merecedor de respeito.

Parece um comentário tão pequeno, quase à toa. Mas enganchou na minha cabeça, de tanto que reflete bem a estreita caixinha onde se guarda o que é considerado masculino. Em outro texto, já falei disso. Como é difícil se manter dentro desses limites do que é aceito como masculino. Como  características de homem-homem. O texto era sobre o feminino, mas lá pelo meio tem esse parágrafo:

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

 Em outro canto ainda, falando de ter filhos meninos, e das dificuldades com que me deparava, escrevi sobre a construção dessa imagem do masculino ainda na infância, da preparação dos meninos para serem homens-homens e do que isso implicava:

Porque é aí que começa tudo: as meninas sonham com vestidos de princesas e com o beijo do príncipe. Os meninos…tadinhos. Dão pra eles bolas, armas, carros. Carros. Caraca. Que coisa mais sem graça. Eu acho. Armas. Aqui em casa era vetado. Mas é comum, né. Bolas. Ok. Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Por que não? Por que não a gente pensar em educar meninos diferente, em abrir espaços novos, em deixá-los ser, e brincar de boneca, de panelinha, do que quiserem? Por que não entender que personagens masculinos angustiados, sofridos, confusos, inseguros são, sim, homens-homens, não precisam ser uma desvalorização dos homens e talvez sejam, ao contrário, uma revalorização? Um mostrar que é possível ser homem e sair um pouco daquele molde futebol-cerveja-coçar o saco, é possível ser homem e artista, ser homem e usar saia, ser homem e gostar de se arrumar, de se enfeitar, ser homem e preferir cuidar dos filhos, ser homem e botar no colo, e – mais difícil ainda – ser botado no colo… relaxar, chorar, dançar solto, rir desbragadamente, ser homem e sair do molde em que prenderam os homens, em que os próprios homens se prenderam há tanto tempo atrás que não sabem mais o caminho de volta e se obrigam a, permanentemente, vigiar outros homens. Porque todos têm que estar lá, dentro da caixinha. A estreita caixinha dos homens-homens. Tão apertadinha. Gestos, entonações, jeito de corpo: coreografia permanente dos homens-homens. Certos, fortes, musculosos, ousados, corajosos: aí, sim. Aí, talvez, o Nilson Xavier ficasse satisfeito e não considerasse que a novela tinha “desmerecido” os personagens homens.

Eu, aqui do meu cantinho, gostei foi muito. Que venham mais. Tá pouco ainda.

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