Tia Sônia e o tio Alzha

É tia Sônia primeiro: irmã do meu pai e também minha madrinha. Tia Sônia de luta: presa e torturada pela ditadura. Tem um video da Comissão de Anistia em que ela dá depoimento, e assim fala sobre a cadeia e a tortura: “Eu dizia: eu não vou morrer. Eu nasci para ser feliz e é assim que eu vou viver.”

E assim foi. Tia Sônia de olhos verdes brilhantes, de risada pronta. De ideias incríveis e inusitadas. Ela me ensinou a comer comida japonesa, a usar os pauzinhos. E a olhar pro mundo de outro jeito. Um jeito mais aberto, mais solidário, mais generoso. Um jeito que eu tento guardar e manter. Um jeito que foi presente da minha tia-fada madrinha.

Elas (minha tia e Pilar, sua companheira da vida toda) tinham um laboratório de fotografia em um banheiro, certa época. Fotos: muito parte da vida. E a gente, criança, ia para lá e se encantava ao ver as imagens aparecendo, se formando, se fixando à medida em que o papel era mergulhado nos diferentes líquidos da revelação. Fotos, viagens. Outras formas de olhar.

Paris na casa delas, nos tempos da ditadura. Primos, risadas, bagunça. A gente podia. A gente falava, a gente fazia com elas. A gente era sujeito, e assim se sentia. Tia Sônia de tanta vida. De tanta vida feliz, como ela tinha dito que seria.

O tio Alzha. Insidioso, foi chegando. A gente reconheceu bastante rápido, porque minha avó já tinha sido visitada por ele. E, embora fosse diferente, era a mesma coisa. O tio Alzha – essa doença cruel que é o Alzheimer, que eu chamo assim na minha cabeça pra tirar as garras dele – chegou pra ficar, como de hábito. E hoje, dez anos depois, reina absoluto. Os olhos brilhantes permanecem, a risada. Mas não há mais sentido nem nexo nas conversas. As conversas são como rios: a gente entra no fluxo e vai indo.

 Vou lá duas vezes por semana, há mais de um ano. Nosso trajeto é sempre o mesmo: a gente sai da casa delas, passeia pelo calçadão e vai até a casa da minha mãe. Lá a gente fica, a gente conversa, vê TV, lancha. E volta caminhando. E conversando.

De vez em quando, me dá vontade de gravar uma das nossas conversas. Pra dar ideia. Porque a gente conversa mesmo, o tempo todo: não é porque as palavras não fazem mais nexo que não há nexo na conversa. Quem já conversou com bebê pequeno (e eu adoro fazer isso) sabe: há nexo na emoção, na intenção. Assim é com tia Sônia. Ela come algo de que gosta, dá um sorriso e diz: “lindo!”. E a gente entende que ela gostou.

Às vezes, começa a contar uma coisa e vai se irritando sozinha: “então eles vieram e fizeram e foi tudo uma merda e eu mandei para a puta que pariu”…. (os palavrões sempre estiveram no vocabulário: não são da doença. São dela mesma). Eu escuto, concordo com a cabeça e arremato: “mas aí você explicou para eles, não foi? E resolveu?”. Em geral ela aceita. Foi isso mesmo. Ela explicou, e no final deu tudo certo. Se acalma.

Aprendo com tia Sônia, ainda e de novo, a olhar o mundo de um jeito diferente. A entender que o tio Alzha está aí, mas minha tia, aquela da vida toda, também está. O desafio é a gente conseguir estar juntas sem o suporte tão confortável da lógica racional. Puta desafio. Mas a gente vai navegando.

E, de vez em quando, ela dá aquele sorrisão, segura na minha mão e diz, confiante: “você é minha.” Sou mesmo, tia. Tá certo. Bora lá. Convivendo com o tio Alzha, como dá. O amor insiste e resiste. Fresta. E quem disse que era racional?

SoniaPilar

Sônia e Pilar. Vida.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

10 ideias sobre “Tia Sônia e o tio Alzha

  1. Lindo!
    Minha avó materna está na companhia de tio Alzha há 30 anos (obrigada, nunca tinha me ocorrido chamá-lo assim).
    Beijo,
    Fernanda

    • Complicado à beça, né, Fernanda. Ainda mais que cada jeito é um jeito, não tem manual: a gente tem que ir levando o barco devagar, porque o nevoeiro é denso. beijo!

  2. Que texto lindo! É exatamente assim que funciona com a minha mãe: nada tem muito sentido, mas pela expressão facial conseguimos reagir ao que está sendo dito e assim podemos manter a conversa. Muito amor pra vocês!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *