Um afago no cansaço

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“O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço*”

Porque tem dias que a gente cansa. Assim, de repente, sem mais explicações ou porquês pontuados em frases certas e bem escritas. A gente cansa em reticências, em exclamações, em pontos usados de forma errada. A gente cansa em travessões sem fala e aspas sem sentenças. A gente cansa.

Há uma exigência quase brutal nos dias de hoje. Uma exigência do sorriso, da maquiagem sempre retocada, da palavra certa. As redes sociais são campeãs disso. Sorria. A foto do instagram mostra a dona feliz carregando flores. Os filtros são bonitos, o dia era cinza mas o toque pro x II fez tudo azul cristalino e inequívoco. A gente sorri e posta frases de efeito. A gente tem que vencer.

Diante de tanta beleza a gente não tem nem coragem de mostrar a nossa dor. Ela não pode desfilar na sociedade virtual de pompas e memes falsos da Clarice Lispector feliz. Clarice também era triste. Caio Fernando Abreu também era louco. Mas, por algum motivo, os trechos escolhidos desses autores para quadrinhos são sempre felizes e otimistas e, claro, não foram eles que escreveram. Porque a gente tem tanto medo de falar de dor e cansaço? De loucura e desacerto? De ir a fundo, por exemplo, na obra de Clarice e Caio com toda sua angústia e beleza e incerteza?

São muitos os padrões da vitória. Fale a coisa certa. Aja da forma correta. Não espante. Não falhe. O mundo contemporâneo é cheio de metas de sucesso. Até nos movimentos sociais, militâncias e grupos de apoio. Seja guerreira. Seja mulher forte. Fale a coisa certa, pondere, reescreva vinte vezes antes de mandar. Veja se está de acordo com o esperado, se o grupo para o qual você se dirige, seja de amigxs, seja de militância te receberá bem. Veja se terá probabilidades de “like”, e palavras de apoio.

Sei que os tempos virtuais são de uma agressividade ímpar, veja lá o que aconteceu com Bela Gil, sua cúrcuma e lancheira saudável: pedrada. São tempos de intolerância. E sei também que a gente não precisa partilhar tudo (ufa!). Então a gente escolhe o bom, as palavras de ânimo, a frase “certa” que não existe. Tem o lado bom, claro, a gente quer se nutrir de esperança. Mas. E o outro lado? Não tem identificação?

Até quando tem doença, você não pode esmorecer. Tem que ser guerreira, tem que vencer. As pessoas parecem querem ver sempre a vitória, o acerto. E a gente, claro, quer ser a vitória a ser vista. E vamos assim ficando com a falsa impressão, que vai se alastrando por dentro, que temos que dar conta de tudo. Né? Tá todo mundo tão feliz e tão colorido, eu também tenho que, eu não posso decepcionar ao outro e a mim mesma. E, ao mesmo tempo, é curioso que a depressão aumenta como uma das doenças mais presentes nesse século. Não é contraditório?

Não, nem sempre. Como uma vez disse uma amiga, aquele super-herói ou super-heroína também tem um ponto fraco. E saber do seu ponto fraco, é o que faz elx ficar mais forte. Eu, que não pretendo ser super-heroína de nada nem de ninguém, venho aprendendo que acolher meus medos, falhas, loucuras e indefinições, me fazem mais inteira em quem sou, ou busco ser, ou acho que estou sendo. Me fazem mais humana. Fazem até as minhas crises de pânico – acalmadas depois de anos de análise nas profundezas bem enrugadas e assustadoras de mim – fazerem mais sentido. Me fazem mais, acreditem, feliz. Porque ser feliz, desconfio eu, é essa coisa toda complexa que somos. Mas essa sou eu. E assim me exponho louca e arrepiada, como também sou.

A gente tem dor e cansaço, medo e confusão, e olhar pra isso tudo é olhar pra quem somos. Ou acho eu, me permito a dúvida, também me permito ser questionada e errada, e transitória e nem sempre fazer sentido. Então eu acolho. Eu, e xs outrxs nas suas dores, nas suas confusões. Pedir colo, colocar no colo. Acolher o imperfeito, a loucura, a dualidade de tudo que vive. Porque ninguém é uma coisa só, e sempre me interessam as metades que se juntam ou se escapam, e não apenas o lado de flor. Flor é bom. Eu tenho, eu gosto. Mas também teve espinho e um monte de colheita vazia.

Tudo bem falhar. Tudo bem não estar disponível e linda às sete da manhã depois da insônia. Tudo bem não ter saco às vezes para nada. Tudo bem falar sobre isso. Para transformar o temporal em poesia a gente tem que olhar pra ele. Navegar, surfar, tomar caldo. Enquanto isso, vou ouvindo a Bethânia recitando cântico negro do José Régio, porque né? Tem dias que só a Bethânia salva. E, não, eu não vou por aí.

“Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…”

(José Régio)

*trechos do Poema Cansaço, de Fernando Pessoa.

 

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3 ideias sobre “Um afago no cansaço

  1. Silvia seus textos são lindos, uma mais belo que o outro. Sou fã. São palavras massageadoras, “descansam” a alma. Gratidão por compartilhar aqui!

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