Um cipreste triste e dois amores de tia Agatha

Este texto contém spoiler, caso exista alguém no mundo que ainda não leu Agatha Christie.

Tia Agatha, como um socorro. Como uma pedra de fundação. Como um galho em que me seguro. Como uma rede, que sempre me embala.
Todo mundo acha que eu estou brincando, menos quem me conhece mais de perto: volto aos mesmos livros, sempre e toda vez. Comfort-livros. Durante muito tempo foi Monteiro Lobato. Depois, Agatha Christie e alguns outros.

O livro no formato “whodunit” (quem matou?) é redondo. Fechado. Acaba de volta no começo, quando a pergunta ganha uma resposta. Querem algo mais reconfortante? Quando a sensação é de caos e de angústia demais da conta, deito na rede da tia Agatha e embalo-me em suas certezas.

Vento que balança as palhas do coqueiro….

Balançando na rede, lembro de recente conversa sobre amor. Tia Agatha fala muito de amor. De um jeito bem peculiar, e não consigo não associar a forma como ela fala de amor à sua própria história: o primeiro casamento com  o belo Archibald Christie, a separação violenta, o segundo casamento com o arqueólogo Max Mallowan, bem mais jovem que ela.

Cipreste Triste é o livro em que tenho a sensação que ela fala desses dois maridos. Nunca vi isso escrito em lugar nenhum: é uma impressão apenas. A personagem principal de Cipreste Triste é Elinor Carlisle, apaixonada a vida toda pelo primo distante, Roddy. Estão noivos.

O sentimento que Elinor tem por Roddy é intenso, ardente. Mas ela disfarça. Sabe que ele não sente dessa forma: é mais contido, mais distante, todo postura ereta, fleuma e jogos de palavras. Extremamente britânico. E Elinor sabe que o assustaria, caso exibisse seus sentimentos reais: Roddy acharia indecente, e sem dúvida deselegante. Algo feito para o povo, não para um pretendente a aristocrata como ele.

Até que aparece Mary Gerrard, filha da caseira da mansão da tia, e Roddy se encanta por ela à primeira vista. Desfaz o noivado. Elinor o flagra olhando para a moça, e imediatamente percebe tudo. Tem vontade de matá-la, a tal ponto que quando ela de fato aparece morta, deixa-se acusar e levar a julgamento. Quem sabe a vontade, de tão forte, não matou Mary de verdade?

E aí é que entra em ação o outro personagem masculino do livro, antípoda de Roddy – e, na minha interpretação, a representação de Max Mallowan: o médico da tia, dr. Peter Lord. Jovem, ruivo, desajeitado. Grande. Reconfortante. Seguro. Confiável. É a ele que Elinor recorre. É ele que chama Poirot para ajudá-la a sair da confusão em que está metida. E, no final do livro, ela acaba dando a entender que o que sentia por Roddy era demais: intenso demais, sangrento demais, violento demais. Portador de sofrimento. E acrescenta que talvez com Peter Lord consiga encontrar alguma felicidade. Uma felicidade tranquila, feita de pequenas coisas, de miudezas do dia-a-dia. Mas nem por isso menos real, justamente porque sólida, porque estável. O contrário dos amores de romance, das paixões desbragadas. Do que sentia por Roddy Welman.

Max Mallowan era arqueólogo, e Agatha Christe não só o acompanhou, mas trabalhou como ajudante em diversas das escavações que ele coordenou. Existe uma frase atribuída a ela que diz que o bom de ser casada com um arqueólogo é que, quanto mais a pessoa envelhece, mas ele a acha interessante.

Tia Agatha tinha humor. E sabedoria tanta.

tia Agatha

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2 ideias sobre “Um cipreste triste e dois amores de tia Agatha

  1. Gostei tanto que tenhas trazido esse livro, essa história e essas ideias. Esse é dos meus, sabe. Quer dizer, sendo dela, é dos meus, mas entre os meus tem os mais. Esse, um brinde de cianureto, o misterioso caso de styles…não, não vou fazer lista, mas geralmente são esses do crime mais íntimo entre os íntimos e do amor que é. Gosto dos que o Poirot tanto une amantes insuspeitos como desvenda tramas.

    O amor das miudezas, ah, esse amor…

    • É dos meus também, claro. Daqueles que eu não consulto para escrever, tá tudo na minha cabeça. De tanto que eu já li. Eu acho isso há muito tempo, mas não sei se já tinha contado….

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