Uma palavrinha, cara ditadora

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Cara ditadora que mora em mim,

Sei que tentei fazer vista grossa para suas exigências por muitos anos, talvez décadas, é, mais provavelmente décadas. Agradeço de antemão o cuidado extremo que sempre tem tido em projetar expectativas tão altas somente em si mesma. Quer dizer, você sabe que é injusta consigo mesma, às vezes pesa a mão demais, mas é a medida de segurança que você aprendeu, não jogar a dor que já jogaram em você em quem está do lado, poupar os outros, só que nem sempre me poupa dessa energia desgastante. Você é perita em implosão. Então, respeitando a sua autoridade (porque sei que é você que põe certas coisas nos eixos, bloqueia eu ir muito fundo em certas memórias, etc), é preciso respirar mais um pouquinho. Isso mesmo, a dura crítica a “procrastinação de pessoa preguiçosa, uau, por isso não vai pra frente”, na boa, não precisa ser tão severa. Sei que é por causa de você que os prazos (geralmente) estão prontos bem antes do previsto, com sua revisão em cores vermelhas e berrantes de “Opa, advinha quem mandou o anexo e esqueceu de arrumar aquele apud, hehehe”, “Não acredito que você ainda está errando isso”. Você usa palavras realmente horríveis como motivação, quer dizer, como culpabilização, como se realmente o universo fosse entrar em colapso porque não se pode controlar tudo o tempo todo. Você faz meu processo de aprendizagem sempre viciante mas um tanto dolorido, quer dizer, posso ter o caminho mais fácil, ou posso ir para o caminho novo, pouco explorado e um caminhão de termos difíceis e desafiadores. É claro que eu pulo no escuro um tanto de vezes. Mas esse pulo no escuro pode significar levantar da cama e chegar no encontro em tempo, sem auto-sabotagens, você tem que parar de me aterrorizar tanto. Cara ditadora, são três horas da manhã e já escrevi dezessete páginas hoje, dezessete, ontem, vou parar sim senhora, que esse braço não é feito de pedra. E vou celebrar com comidinhas e dancinhas e amorzinhos, eu sei que você só me deixa descansar se eu tenho a sensação de ter dado o máximo antes. Porque, você, Ditadora interior, parece uma propaganda tucana: “Trabalho, compromisso, responsabilidade”. Porém, também tem seus momentos de glória.

Por exemplo, aquele seu lado mais divertido e soltinho, arisco, sarcástico, desbocado, eu acho que é parte sua esse carão que eu adoro, uma certa petulância com gente desrespeitosa, essa vontade de querer o mundo no talo. E os desejos praticamente megalomaníacos, espontâneos? Eu adoro. E por não suportar a tirania de ninguém (nem de  si), vive reinventando as próprias regras e burlando as tuas leis. Talvez, você seja parte de uma força motriz que sempre me guiou, em todos os lugares, mas agora, estou respeitando e considerando sua devida importância, sem contar, gozando (em todos os sentidos) de sua vibrante companhia. Fica que a gente se ajeita, fica, que a gente reveza, fica que a gente se prosa.

11351327_1457045754607564_5642394097373800822_n* Deborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.

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