A quem pertence a história

Aí o moço olhou pra mim meio de lado e disse: “eu estou me sentindo responsável por você ter terminado com ele”.

Eu tomei um susto. Como assim “responsável”?

Amigo, isso não tá na sua conta. Isso não tem nada a ver com você. Você, por acaso, passou por ali na hora em que isso estava acontecendo. “Isso”: aquela história, minha e do outro cara, estar acabando. A história era minha e do cara, não sua. Onde é que você podia ter alguma responsabilidade nela?

Ah, porque eu olhei pra você, porque me interessei por você? Mas isso é outra história, não vê? Essa é – ou seria – a minha com você. Que nem é história, vai: é um encanto. Como é que algo assim tão aleatório poderia me fazer terminar uma relação de anos? Claro que não. Sinto informar, seu ego talvez sofra um baque: você não é tão importante assim.

Ninguém é tão importante assim. As histórias acabam porque acabam, e às vezes a gente acha mais confortável responsabilizar um terceiro pelo fim delas. Mas nunca é verdade: no máximo, é coincidência.

As histórias pertencem única e exclusivamente aos envolvidos na história: e se há histórias com mais de duas pessoas, é que há relações que envolvem mais de duas pessoas. Caso contrário, ora, não. A história é das duas pessoas que nela estão. E, se acabar, é por motivos que dizem respeito exclusivamente a elas.

Ou você acha mesmo que foi a sua aparição loira-de-olhos-azuis que virou minha vida pelo avesso? Isso aí se chama catalisador, não vê? Apenas algo que acelera a velocidade de uma reação. A reação, ela, já iria acontecer de qualquer forma. Tava previsto. Tava contado. Tava escrito na própria história. E nem é que “não tenha dado certo” a história: deu, ué. Deu certo pelo tempo que deu. Esse era o tempinho dela. Encontro-coreografia-afastamento: no compasso. Ao som da cuíca.

Você? Ah, gostei de te encontrar também. Até porque me ajudou a ver algumas coisas mais claro. Até porque me mostrou que eu já devia ter pegado a mochila e seguido caminho. Mas “responsável”? Sinceramente, não mesmo. Pode ficar tranquilo. Relaxado. Aliviado. Não teve nada a ver com você. Era minha a história. Minha e do cara lá. Era e continua sendo, até seu final.

Mesmo que pra alguém seja mais confortável acreditar que tudo teve a ver com uma aparição loira e um encantamento.

 FimdeCaso

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *