“Amores Livres”: escolhas possíveis

Woodstock, 1970

Woodstock, 1970

O GNT começou a passar, esta semana, uma série documental sobre arranjos não-convencionais de relacionamentos, chamada “Amores Livres”, com direção de João Jardim. Mais especificamente, sobre o chamado poliamor: relacionamentos amorosos em que estão envolvidas mais de duas pessoas.

É um sopro de ar fresco na mesmice dessas conversas: quase 50 anos depois de Woodstock e seus eflúvios, parece que o mundo entrou em uma espiral de convencionalismo em que tudo a que se aspira é casar com aliança no dedo.

(Parêntesis necessário: aqui não vai nenhuma crítica à reivindicação justa do movimento LGBT pelo direito ao casamento “de papel passado”: direitos iguais é ponto de partida e condição sine qua non para qualquer conversa.)

Dá certa preguiça o recrudescimento dos casamentos com pompa e circunstância, e até da quase moribunda instituição do noivado. Noivado? Juram? No tempo da minha mãe, tinha uma utilidade clara: noivos podiam sair juntos sem uma irmã ou prima “de vela”, supervisionando o casal. Era um avanço, sem dúvida nenhuma. Mas hoje? Pra que noivado, minha gente? Não consigo nem começar a imaginar. Sério.

E casamento? Gosto de festa, gosto de cerimônias e até choro em casamentos alheios. De verdade. Mas a instituição…. eu preferia que caminhasse para o seu fim. Para que a gente já tivesse avançado (ou retrocedido) para um mundo mais tribal, em que crianças fossem cuidadas pela comunidade e não só pelo núcleo familiar mínimo, em que os idosos também fizessem parte de um todo, em que as relações amorosas estivessem menos permeadas de contratos de propriedade.

É claro que, dentro desse contexto de capitalismo cada vez mais agudo, cada vez mais selvagem, não ia acontecer. Claro. Os usos e costumes não são independentes do contexto geral, e o contexto geral é de individualismo avassalador. Dois já é muito, imagina vários? Imagina a comunidade em Mauá ou em São Miguel do Gostoso?  Imagina o todo-mundo-com-todo-mundo, quando for, quando rolar, e por que não, e talvez quem sabe…? Ah, mas aí não dá. Pra quem vou deixar meu apê, meu carro, minhas aplicações? Quem serão meus herdeiros, quem carregará meu nome, quem lustrará o brasão da família? Muita bagunça isso aí. Vamos namorar, noivar, casar, tudo comme il faut que fica mais organizado. Mais fácil de administrar. Peixoto, o contador, agradece.

Nesse mundo de escolha única, que bom que tem o programa do GNT, mostrando com um olhar generoso, deixando que as pessoas contem sua história, suas alegrias, que tragam à baila seus conflitos e suas dúvidas com essa escolha não-convencional que é de se relacionar a vários.

E como isso incomoda, parece. No primeiro programa, várias vezes se fala disso: da repreensão alheia, das brigas com pais, das gentes que se acham no direito de se meter e de dar palpite onde não foram chamadas. As escolhas alheias perturbam. Mostram possibilidades que tantas vezes seria mais cômodo achar que não existem. Abrem espaço para o novo, para o diferente, para o inesperado. Deixam perguntas sem respostas, vislumbres de caminhos que, por serem menos percorridos, nem por isso deixam de estar aí, à espera. De quem queira. De quem ouse. De quem procure.

http://gnt.globo.com/series/amores-livres/videos/4273134.htm

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2 ideias sobre ““Amores Livres”: escolhas possíveis

  1. Que texto tão bom de ler, tão bem escrito, tão pertinente e tão generoso em horizontes. Anima, conforta, inspira. Obrigadinha por fazer lembrar que a história se faz quando nos fazemos acontecer.

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