Das bagagens

despedida

As malas maiores já foram despachadas, mas ela ainda parece desengonçada: uma bolsa grande no ombro, o casaco no braço quase arrastando no chão, uma vida de equívocos e esbarrões no jeito que gesticula, sem som, enquanto se perde nos olhos dele ali, um pouco à direita do portão de embarque. Ele, em longas, discretas e adequadas mangas azuis, os olhos ainda mais brilhantes que sempre.

O silêncio que costuraram feito colcha de retalho ao longo dos anos agora os aquece e abriga. Desacostumados de carinhos públicos, ele hesita um momento antes de afagar o rosto que lhe sorri, triste, mas sorri. Ela inclina a cabeça, como aprendeu nos romances de banca lidos na adolescência e deixa a dor futura repousar naquela mão. Aquela mão que a coube toda, que a soube toda, que reinventou seu corpo ao percorrê-lo todo, tantas vezes que ela desaprendeu o tempo.

Ele limpa a garganta e ela sabe as palavras, as promessas, o eterno, o pra sempre, o depois, um negócio em uma rua qualquer, um outro lugar, eles tão outros, o casal que ensaiaram ser. Ela sabe o sentir em cada intervalo entre as frases a serem ditas, antecipa as cores deste horizonte, seria a narrativa do acordar em pernas entrelaçadas, a cumplicidade simples do café com torrada, as miudezas do dia sussurradas antes do sono. Ela sabe o desejo, a viagem, a mudança. Planos. Ela sabe, ela quase. Mas. Ela também sabe que é preciso descerrar os olhos. Ela também sabe que é preciso se afastar da mão. Ela também sabe que é preciso não ouvir. Saber é sua dolorida alegria. Ela sabe, mas teima e fica mais um minuto naquele eterno.

É o som que ele repete de limpar a garganta antes do falar – e que a obrigaria a dizer que não acredita, que não pode, que não conseguiria ser essa ela nesse outro lugar com esse outro ele – que a impele ao movimento. Há coisas que não podem ser ditas e coisas que não devem ser ditas. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não sabe onde localizar as que eles quase enunciam. Seu rosto se afasta da mão dele, lenta como um navio pesado em manobras de partida.

Ela chora. Lágrimas pesadas de sal e memórias. Para disfarçar o choro, para impedir o dito, ela beija. No seu sem jeito de sempre deixa casaco e bolsa escorregarem enquanto molha a boca dele com sua, o sal virando sol, a língua luz aquecendo o dentro, o entre, o tanto. Sem nenhuma palavra, sem nenhuma promessa, sem nenhum eterno ela recolhe bolsa, casaco, futuros e parte. Um passo de cada vez, ela embarca antes em si mesma e tenta lembrar o ser sozinha.

Com infinito cuidado pra não tropeçar, sussurra pra si mesma Leminski: um homem com uma dor é muito mais elegante. A si mesma enganando, conta os passos até ultrapassar o portão de embarque e não poder mais ser vista, nem ela, nem sua bolsa enorme, nem a ponta do casaco que arrasta no chão sem deixar rastro.

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