Templo

Por Maíra A., Biscate Convidada

4470295_Kad__nlar_Hamam__,_2009,_Ta_YB,50x70_cm

Primeiro, os olhos se arregalam com o choque tantos corpos de mulheres que circulavam completamente nus e à vontade. 15, 20 mulheres muçulmanas deitadas e sendo ensaboadas por outras mulheres. Depois, a diversão de me juntar a elas e me deitar numa pedra morninha, que imediatamente aliviou as costas e quase me fez adormecer. Os olhos fechados aguardavam o desconhecido do próximo momento. De repente, duas mãos fortes e vigorosas começam a esfoliar o corpo espumante e quentinho. Depois, os cabelos são ensaboados, os olhos meio cegos são direcionados a uma bica e a água quente é fartamente jogada na cabeça. Enxáguo o restante do corpo e os olhos, atentos e relaxados, aguardam numa sala de espera. E então, um momento de redenção: uma mulher espalha um óleo natural de laranja no corpo completamente entregue. Os olhos se rendem fechados, enquanto cada recanto do corpo é massageado e os ouvidos são embalados por canções em turco, cantadas quase que num sussurro agudo e afinado. O tempo cartesiano se perde completamente: 30, 60, 90 minutos? Só é possível perceber-me em transe, quase que como num ritual religioso. O corpo é templo num tempo perdido. A lógica é suplantada por momentos tão introspectivos e profundos do corpo, que a mente se revigora na atenção em suspensão, proporcionada pela ausência da palavra. Onde a palavra falha, o corpo se manifesta e é acolhido generosamente em atitudes de afeto gratuito, vindo de pessoas que não falam a minha língua, mas massageiam e embalam a minha alma. O hamam suspende as burcas, o fluxo do pensamento e me faz reavaliar a minha suposta liberdade ocidental. Simplesmente não consigo pensar em lugares coletivos em que o corpo seja não apenas exposto, mas acolhido e cuidado por pessoas desconhecidas, com quem estabeleço laços de de gratidão. Logo depois, brindo a oportunidade de ter experienciado este momento lindo, olhando pra vocês e muitas emoções sentindo. Obrigada, mulheres! Ou melhor: Teşekkürler, kızlar!

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

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