Todas Essas Coisas sem Nome – Prefácio e 1o Capítulo

Esse é o prefácio e primeiro capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club. As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

6

Para W.

Eu queria te fazer feliz. No meio da estrada, no meio do mundo.

Como contar apenas agora que estou só nossa história?

Poderíamos ter tentado antes. Quando você sabia, eu também.

Mas ficamos em silêncio. Calar a boca era o mínimo que devíamos ao cinismo e a todas essas coisas sem nome que nos obrigaram a permanecer assim. Mesmo.

Ainda somos a geração dos que morrem de medo. O tipo de gente que sempre pode tentar ser novamente feliz para sempre – como na música que ainda não acabou de tocar.

As palavras que poderiam ter nos servido de salvação, foram embora cedo demais.

Nós também, meu amor, antes mesmo de termos começado a acreditar um no outro.

Inverno

“Meu coração tropical está coberto de neve,
 mas ferve em seu cofre gelado,
 a voz vibra e a mão escreve mar
 bendita lâmina grave que fere a parede e traz
 as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais.”

 (Corsário- João Bosco cantado por Elis Regina)

I

Porque eu ainda acredito que você possa mudar de ideia, escrevo. Sinto-me com setenta anos, e hoje tentei não me olhar no espelho. Também não saí por aí tentado entender e perdoar em outros corpos o aprendizado que fostes. Sim, fostes. Algo… Ao menos.

Mas confesso que me sinto muito, muito aliviada sem a expectativa opressora de ter que reencontrá-lo. Acontece que sem ela tenho me cuidado muito mal. Não posso culpá-lo, nem a mim. Isso me envelheceu demais, sabe?

Tenho agido no automático. E uma das poucas coisas que tenho feito de forma consciente, é drenar o tom emocional de nossa última conversa. Tentar entender o que realmente foi dito, sem tantos sinais, exclamações, acusações ou enfado excessivo. Sem entonação, sem riso, sem grito, sem desejo.

Nada era tão bom, nem tão ruim. Penso e arrepio de medo. Fui nossa história por um tempo. Sozinha. Não posso esperar mais nada de você, nem mesmo uma leve culpa, isso me causa horror, como se espíritos maus estivessem me roubando alguma coisa muito importante ao passar roçando seus lençóis em mim. Procuro nas gavetas e dentro dos bolsos. Onde é o lugar certo de guardar as ilusões do para sempre?

Escrevo, escrevo, escrevo. Escrevo para não enlouquecer. Até a raiva é mentira. Talvez sinta apenas uma leve vergonha. Tenho uma comiseração nojenta ao assumir isso.  Sinto pena de mim, eu estou com muita pena de mim. Mesmo. Mas é uma pena intercalada com uma total frieza. E desprezo.

Penso que quando se sente dessas coisas, deveríamos apenas narrar fatos. Como numa necrópsia. Mas ninguém morreu. Ninguém sofreu. Ninguém está feliz também, já que a sua felicidade com ela é apenas mais uma ilusão. Torço os dedos e bato na madeira para que seja isso.

Estou definitivamente congelando aqui. Querendo agradecer de joelhos por isso. Dizer: “Moço, você me salvou de mais uma idealização. Obrigada, Obrigada, Obrigada.”

E depois, chamá-lo de canalha. Mas só depois de ser educada e contida. Aí eu vou me convencer. Nunca conversamos. Nunca trepamos. Continuarei fantasiando nas músicas, nas coincidências e no gozo solitário de depois do almoço.

Não quero mais escrever tristezas, no entanto, que diferença pode fazer agora?

Talvez eu ainda me importe.

Merda.

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