Amor pra que (m)?

Por Vinícius Abdala*, Biscate Convidado

Eu não me lembro quando foi a primeira vez que percebi no olhar dos meus pais, sobretudo o da minha mãe, que eu jamais seria tudo aquilo que eles esperavam que eu fosse por ter sido identificado como menino ainda durante a gestação. Me lembro, contudo, das vezes que meus comportamentos foram motivos de castigos físicos, minhas vontades e desejos motivos de chacota e meus sonhos motivos de deboche. Tudo em nome de uma masculinidade e ao tocante sobre “o que é ser homem” numa sociedade machista e patriarcal.

Na época, claro, não percebia que configurações de famílias serviam – e servem até hoje – para vigiar e punir comportamentos não normativos e, para além disso, disseminar essa (des)educação para frente. Com a pouca idade somada à educação nada transgressora nos ensinos formais de educação, o tempo era meu pior inimigo; quanto mais se passava, mais culpado me sentia. Espero que um dia minha irmã mais nova me perdoe e entenda que todas as reproduções de preconceitos e opressões que dirigi a ela foram, talvez, as válvulas de escape que usei para lidar com todas estas situações.

Lembro-me das vezes que envergonhei meus pais por dançar É O Tchan (sendo a Carla Perez, óbvio) aos sete anos de idade durante a ceia de Natal, das vezes que cantava mais fino para parecer com a voz da Sandy, das coreografias da Britney Spears aprendidas vendo seus DVDs incansáveis vezes ou simplesmente pelo vocabulário um pouco mais rebuscado que fazia questão de usar para que nunca me associassem aos homens héteros que repetiam sempre gírias como “qualé”, “coé”, “mano”, “véi”, “zuêra” entre outros.

Foi gradativo o entendimento de que amor não é inerente ao ser humano, mesmo quando a gente cresce sendo forçado a acreditar que amor de família – principalmente materno – é o único amor verdadeiro que você sempre vai ter. Aos poucos, fui entendendo que amor é construído e tem que ser conquistado, e quando o mundo prefere te silenciar e negar a sua existência, o amor se torna privilégio. É preciso constantemente provar que, ainda que todos em volta façam de você uma piada constante, você é um ser humano e tem as mesmas necessidades básicas que todos os outros.

Amor não é oferecido de graça. Pelo menos pra mim não foi. Fui ridicularizado por muitos que diziam me amar. Já chorei escondido em banheiro de bar porque amigos resolveram rir da minha sobrancelha mais “feminina”. Já fui impedido de sair de casa usando tal roupa porque não queriam ser vistos em minha companhia vestido “daquele jeito”. Já fui patologizado pela ciência, demonificado pela religião e ainda sou rejeitado pela sociedade. Eu já nasci sem o direito de resposta.

Das vezes que meu pai me levou forçado ao barbeiro para cortar o cabelo bem curto (sempre quis ter cabelo grande) ou das vezes que repreendido por “desmunhecar” demais, nunca uma mão fora estendida para que amenizar as constantes agressões que sofria a todo o tempo, em todos os ambientes que passei.

Eu já rezei o terço de joelhos de portas trancadas pedindo a Deus para ter câncer e morrer logo, pensei em suicídio inúmeras vezes por saber que não ia dar conta dessa cruel realidade construída em cima de interesses e discriminações ao qual nós, minorias sociais, vivemos 24 horas por dia. Passei, inclusive, todas estas noites chorando abafado no travesseiro, afinal, “homem não chora”.

A máscara da imunidade começa a aparecer e a falsa ideia de que você é auto-suficiente precisa prevalecer. A vida de humilhação e desprezo cansa. Estar sempre nivelado abaixo do resto do mundo não soa somente injusto, é desumano. Agir com os outros como agem constantemente com você não parece ser tão errado assim a certo nível.

Com o tempo, muito em função de uma pessoa em especial e a Psicologia, percebi, contudo, que amor é oferecido de maneiras distintas e, mais do que isso, ele pode não vir da forma como esperamos que ele venha. Ele não deixa de ser privilégio; continuamos a ter que provar nossa condição humana dia após dia, já que muitos insistam em esquecer.

Passei uma vida não me sentindo suficiente para ninguém, sempre estranho, feio e sempre menos e/ou menor do que qualquer pessoa que se propunha a estar comigo. Continuo, até hoje por exemplo, sem entender o que as pessoas veem em mim. A insegurança, timidez (para alguns pontos) e solidão sempre caminharam de mãos dadas comigo ao longo do meu percurso. A baixa auto-estima, oriunda de uma história de vida cheia de momentos onde fui negado em público, rejeitado ou mesmo “trocado” por pessoas que atendem a um padrão pré-estabelecido de comportamento e forma, sempre esteve presente. Inclusive, essa nova imposição do que se diz “amor livre” não me soa nada novo. Trabalhar o ciúmes como mera questão de posse e não algo que deve ser superado num processo de autorreconhecimento e emancipação me soa, de novo, como mais do mesmo.

Percebo, enfim, que não importa aonde eu chegue, que diferença eu faço ou que tipo de ser humano tenho me tornado, vou sempre carregar o fardo comigo de que nunca supri ou suprirei expectativas sendo o único homem numa casa de três irmãos.

Ainda assim, mesmo que depois de muitos altos e baixos, me sinto empoderado para ser quem sou sem a permissão de ninguém, ainda que isso tenha me condenado à solidão. Tenho tentado agora direcionar meu amor a mim mesmo, sem alterar absolutamente nada do que sou ou quero ser em função dos outros. É a tarefa mais importante e difícil que vivo atualmente.

Pra quem chegou até aqui, quero direcionar tudo isso àqueles que, como eu, passam e/ou passaram pelo que vivi e se viram sem chão. Quero poder fazer a diferença na vida de um ou um milhão no que diz respeito a auto-valorização, ao auto-respeito, e, acima de tudo, ao amor próprio. Quero justificar esse relato aos que me questionam sobre meus posicionamentos radicais quanto ao “poliamor” e, não menos, mostrar ao mundo que eu existo e resisto, mesmo num mundo que insiste em dizer que eu não deveria estar aqui sendo quem sou, da forma que sou.

Por fim, quero um dia poder fazer um relato, do mesmo tamanho e na mesma intensidade dos dias que me fizeram sorrir até cansar. Nunca pediram para que eu nascesse, mas também nunca pedi para estar aqui. Que não seja em vão, portanto.

Ps: a nível de curiosidade, eu amo meus pais, hoje em dia convivemos melhor e se cabe a mim perdoá-los por alguma coisa, o perdão está dado.

11944848_10207979992277025_1711212466_n*Vinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé.

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