Despedir-se é sempre

mar
Eu vou aprendendo a me despedir. Aprendizado que acumulo desde que me conheci perguntadora, e não conseguia entender porque as pessoas cresciam. Eu não queria. Queria estar sempre ali, perene, vivendo intensamente a minha meninice. Mas veio o tempo. O tempo sempre vem. E com ele aprendi que as coisas eram boas quando se cresce. Novos sabores, novos sentires. E que as lembranças que se guarda são parte da gente. Nos formam, se somam, se moldam diferente nos nossos quadris. Remelexo.

E eu ia sofrendo a cada despedida. Da amiga que ia embora. Da cidade que eu deixava pra trás. Do fim da adolescência. Do primeiro namorado que se despediu. De mim que não era mais a mesma. Queria agarrar o momento, guardá-lo emoldurado na parede da memória. Tudo que vivia com a intensidade de nunca mais. Engolia pelos olhos. Mas o tempo. Amarela. Descolore. A gente não retém.

A impermanência era um desafio para meus anseios de viver tudo. E querer sempre mais, sagitarianamente. Eu ficava brava com o tempo. Eu não queria. Crescer era deixar pra trás, e a gente cresce um pouco todo dia. A gente envelhece um pouco todo dia. E a gente se despede todo dia. Um pouco. Por pouco. Grandes e pequenas travessias. O desapego forçado do tempo. O assombro.

Caminhamos, a vida é movimento. O novo sempre vem. E as mãos cansam-se de tentar segurar o que não tem. A areia sempre escapa, fina, para o outro lado da ampulheta. O vento, o fluxo, o rio que não para de correr para o mar.

O que aprendi ao longo dos anos, que não param de somar-se no calendário, é que se despedir é bonito. É vida que pulsa. Aprendi a contemplar a impermanência. Talvez essa seja a verdadeira entrega: pular no rio e se deixar levar. Lavar. Renovar. Sentir o vento frio na nuca enquanto se atravessa.

Saber-se só e filha do tempo. E tão cheia da gente mesma. Sentimentos e memórias que vão navegando com a gente, de tal modo que a solidão não dói. A solidão somos nós povoados de tudo que somos, de tudo que fomos. E que a pergunta nos traz em futuro. Seremos sempre a especulação do que somos. Hipóteses. Entregar-se é saber que a gente não sabe. E que a gente não é, a gente vai sendo. Filhos, filhas, casamentos, relacionamentos, trabalhos, amigas, amores, cidades, viagens, lugares. Tudo vai passando com a gente. De tudo fica um pouco. Tudo nos forma. E tudo se esvai.

Despedir-se é sempre.

 

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7 ideias sobre “Despedir-se é sempre

  1. Lindeza, Silvinha, como sempre. E eu lendo e pensando.
    Porque eu me despeço, mas guardo. Deixo ir, mas fica em mim. Desapego, mas crio camadas até então inexistentes de eu.
    Os momentos e as pessoas vão. Mas ficam.
    Um beijo imenso.

  2. Eu ainda sofro a cada despedida. Ainda quero agarrar o momento, ainda vivo com a intensidade de nunca mais. Ainda brigo com o tempo, impaciente, querendo já o que ainda não tenho; querendo ainda o que não tenho mais. Mas ao mesmo tempo, pulo no rio e me deixo levar, sempre. E vou aprendendo a deixar pra trás, pra dentro, pra sempre, de uma forma ou de outra. Com doçura e gratidão, sempre, sem dor nunca.
    Aprendo tanto lendo você, você não faz ideia.

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