Manda Nudes

Texto construído em conversas
com a deliciosa e sabida Patrícia Guedes

Como eu já disse por aqui, gosto muito de ficar nua. Acredito que somos nosso corpo e nosso corpo nos é. Estamos. Assim, conhecer, tocar, percorrer, gozar do próprio corpo me parece caminho interessante a ser percorrido no processo de minha diferenciação, autonomia e prazer de viver. Enfim, pele, suor, saliva, contornos, buracos, texturas, tudo isso me interessa. Não é apenas sobre me sentir ou não bonita, desejável, atraente, whatever, mas sobre sentir-me bem, sentir prazer no corpo, sentir a potência e os limites do meu corpo, ou seja, meus limites e minha potência (o que também inclui sentir-me bonita, desejável, atraente, porque não? Só não se reduz a isso).

Ser gente, hoje, em tempos de capitalismo flexível, é lidar diariamente com estruturas, cultura e discursos de controle do corpo. De forma agravada, quando se é mulher – o bonde do capitalismo segrega e machuca quando agrega machismo (e racismo, homofobia, bifobia, transfobia, capacitismo, gordofobia, etc).  O corpo de uma mulher (concreta, real) está sempre errado frente a uma mitificação do ideal de mulher (abstração branca, magra, cisgênero, sem deficiência, de classe média, etc). São corpos à margem.

Os corpos das mulheres trans*, permanentemente vigiados, condenados ao se ajustarem de forma insuficiente ao ideal feminino, rotulados como “falsos” ou condenados por se ajustarem demasiado e colaborarem para sustentar esse padrão. Os corpos das mulheres negras, reduzidos ao seu grau de exotismo. Os corpos das mulheres que, aparentemente seguindo o “correto”, como malhar, o exacerbam a seu gosto e fogem do esperado. Ah, mas esses corpos nem parecem de mulher. Ué, se o corpo é dela e ela é mulher, logo seu corpo é “de mulher”. (Fragmento de Mulheres: Corpos Sempre Disponíveis, publicado no Blogueiras Feministas)

O corpo de uma mulher é território sobre o qual terceiros pretendem poder legislar, avaliar, rotular, categorizar e dispor. Não por acaso temos os altos índices de violência obstétrica, temos uma legislação punitivista e moralista sobre interrupção da gravidez, temos “argumentos e considerações” sobre o comportamento e roupas de mulheres vítimas de assédio e violência sexual, temos a mitificação da maternidade e o silêncio sobre a ausência de ações coletivas que resulta em culpabilização das mulheres no que se refere ao cuidado de crianças, temos o silêncio cúmplice e indiferente aos altos índices de violência doméstica, temos o assustador número de assassinatos ignorados de travestis e transsexuais. Poderia aumentar – e muito – essa lista, com elementos aparentemente díspares mas que se reúnem sob o selo de um poder externo sobre o corpo das mulheres.

Nesse sentido, uma relação íntima e prazerosa com o corpo me parece vital, provocadora, até revolucionária. Não em uma perspectiva individualista e essencializada, mas uma relação íntima e prazerosa com um corpo concreto, um corpo com contexto, um corpo localizável na geografia, um corpo com gênero, classe social e raça. Não uma relação onde se afirme um corpo e uma leitura do corpo próxima do aceitável, mas justamente uma relação “errante”, que se constitui no gozo de ir onde o corpo vai e não levar o corpo a algum lugar pré-determinado. De outro modo, uma relação íntima e prazerosa com o irrepetível do corpo, com a particularidade do nosso desejo, com o que escapa. Não é negar o que nos falta, mas acolher a ruptura, a ausência, festejar a diversidade, a alteridade de cada corpo (e, assim, de cada sujeito). Alteridade que só faz sentido, justamente, na localização além desse corpo único, na classe, raça, local, gênero que o compreende.

a10fig03

Esse preâmbulo todo é pra falar de nudes. Esses dias uma revista dessas famosas e tal convidou as mulheres a mandarem nudes sem identificação (sem rosto, mais exatamente) para serem publicados na próxima edição. Não se trata de julgar os nudes que serão feitos e enviados. As ações individuais das mulheres não serão, por mim, rotuladas, questionadas ou qualquer coisa nesse sentido. Mas isso não implica abdicar de tentar compreender e discutir como a convocação da revista é operada, a partir de que lugar discursivo e com que implicações. Euzinha considero essa convocação completamente irresponsável. Dependendo do momento, utilizo até adjetivos mais fortes. Sob o discurso de um suposto empoderamento, rasteja a mais completa falta de noção ou uma escrotidão quase indefinível. É inconsequente, para dizer o mínimo. Ficando só no óbvio, como a revista vai proteger mulheres de terem suas fotos nuas, feitas em momentos de intimidade e sem esse propósito, enviadas por terceiros? Como assegurar que apenas mulheres maiores de idade enviarão os registros fotográficos? Que critérios serão usados para selecionar as fotos? Os corpos “não-convencionais”, usualmente cosiderados abjetos, ignorados e silenciados, os corpos das mulheres gordas, negras, trans, esses corpos serão igualmente acolhidos?

E eu fiquei especialmente matutando o lance dos nudes serem solicitados “sem cabeça”. Na primeira leitura pode parecer que é para proteger a privacidade da mulher – e em parte opera assim, mas não garante, o cenário pode ser igualmente revelador, mas divago. Porém me parece que há algo que age para além da garantia de privacidade. Fiquei com perguntas. Se o objetivo alegado é o tal empoderamento, como acontece se a pessoa se apaga, se desindividualiza, se esconde? Não seria o caso de posar com nome, sobrenome e riso solto? Reconheço que minha reflexão parte de um lugar de privilégio, de poder mostrar o corpo se e quando eu quero sem (muitas) represálias. Mas não seria o caso de agir no sentido de construir uma sociedade em que esse privilégio não fosse o que é e não apagar o problema, descartando os rostos e identidades?

Não sou contra nudes (nem precisaria dizer, mas, né, só pra garantir). Não acho que fazer nudes é uma burrice inconsequente que só serve pros homens se excitarem – como vi repetido por algumas pessoas (o que, aliás, revela um pensamento bem heteronormativo, afinal apaga que há mulheres que se excitam com outras mulheres). Considero que o nude pode ser uma ferramenta útil nesse processo de construir uma relação íntima e prazerosa com nosso corpo. Assim como a masturbação, andar nua pela casa, olhar-se no espelho na hora do banho, ir a uma praia de nudismo, experiências várias que permitam uma aproximação da gente com a gente mesma. Mas como qualquer instrumento, o nude se localiza não no vácuo, mas em um processo sócio-cultural multideterminado. Como qualquer instrumento ou ferramenta, ele não é em si mesmo, mas opera ao ser operado.

Em uma conversa no FB, ainda hoje, aprendi um bocado sobre como o nude pode ser valioso para pessoas, para mulheres, que tem seu corpo vistos como abjetos, não-desejáveis nem desejantes. O nude permite, para além dos outros exemplos que dei, um certo controle do sujeito sobre o próprio corpo, um controle originado não do exterior como a maior parte dos controles a que nossos corpos são submetidos, mas uma determinação sobre como se vai ser visto. O que o sujeito deseja re-velar (mostrar para esconder, esse jogo de sombras e ausências que nos permite ser) é o que a fotografia oferece.  O nude convida o olhar do outro, entrega-se supostamente ao crivo alheio, mas, concomitantemente, seleciona o que vai ser visto, dando uma certa margem de conforto. Mesmo que o nude seja para ser visto pela própria pessoa (um self-nude?) o olhar que temos sobre nosso próprio corpo nu é um olhar Outro, mediato, um olhar no só-depois.  Afinal, o corpo registrado no nude não é mais o corpo, mas uma representação não só do corpo, mas de um discurso que o registro incorpora. Para as pessoas que tem seu corpo diariamente avaliado para além do seu desejo e controle, esse poder é, repito, valioso.

René Magritte La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe) (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929 Oil on canvas 23 3/4 x 31 15/16 x 1 in. (60.33 x 81.12 x 2.54 cm) Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, California, U.S.A. © Charly Herscovici -– ADAGP - ARS, 2013 Photograph: Digital Image © 2013 Museum Associates/LACMA,Licensed by Art Resource, NY

René Magritte – La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe)                                                         (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929

Então, eu podia terminar esse texto falando que existe um nude certo, um nude de raiz, um nude arte, um nude moleque. Mas não vou. Não vou dizer que o nude convocado pela revista será, necessariamente, alienante. Ué, para alguém (ou alguéns) pode ser um montão de coisa, divertido, empolgante, excitante e, até, elemento de autonomia e responsabilização pelo desejo. Não tem norma, não tem forma. O sentido da experiência quem vai dar é o próprio sujeito, cada mulher que enviar – ou não – sua fotografia. Cada qual no seu desnudar-se, cada corpo no seu revelar-se, cada desejante responsável pelo seu desejo. Mas o significado (beijos, Vigotsky) da convocação da revista e da publicação das fotos, esse tendo a considerar como mais do mesmo no que tange a corpos femininos anonimizados, descaso pelas implicações na vida das mulheres e tendência a uma certa mercantilização e domesticação dos corpos revertida em capital.

Meu desejo é que esse território explorado, que é o corpo feminino, se insurja cada vez mais. Em nudez, em riso, em gozo. Que opere a contradição e que subvertamos a ordem. Que os corpos errados não se tornem certos, mas que reconheçamos a beleza do inesperado. Que novos significados possam ser construídos, a partir de sentidos outros, diversos, indomáveis. Que a materialidade dos corpos, suas fomes, suores, fluidos, fragilidades e potência entrem na dança e na luta, corpos que existem, que demandam, que sofrem e sentem e gozam. Bora nessa, sem precisar de validação de revista, um dois, três: todo mundo nu! YAY!

Leia também: As Marcas e os Memes

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

7 ideias sobre “Manda Nudes

  1. li tantos textos criticando essa iniciativa que me pareceram piores do que a própria iniciativa e só vc conseguiu colocar em palavras o desconforto que eu senti com isso. te amo. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *