O outro em mim

Por Helen Leal*, Biscate Convidada

“Se não me misturo
Ao que é diverso no mundo,
Fico ausente de mim.”

           Decidimos terminar. Ou melhor, decidi e ele me disse: espero que a certeza da tua certeza te faça feliz, porque, quanto a mim, seguirei juntando os pedaços. Fiquei com aquela imagem de corpo esquartejado na cabeça e me senti desconfortável, pois não queria fatiar nenhum corpo, nenhuma alma, nenhuma lembrança. Só queria recomeçar.

          Alguns dias se passaram e percebi que o meu próprio corpo se desmanchava. Por uns minutos poderia ser um saco vazio sem órgãos e por outros um canto de passarinho de manhã cedinho, ou ainda, o pelo macio do gato em contato com a pele. Me sentia ora repleta de mim mesma, ora sem os braços, os pés e até mesmo sem a cabeça. Dentro de mim fazia eco, por outro lado, sentia cheiro de mar e minha pele mudava de cor. Estava em transformação e gestava em mim algo desconhecido do meu inconsciente porque parecia vir de fora, mas um fora que era borda também e prenhe da minha história no mundo.

          Meses depois de ter terminado, passeava por uma cidade pequena, encravada numa serra. Ali, me vesti de orquídea lilás, fui os matizes do verde das matas, fui o cheiro do café caseiro e me desfiz em noites frias ao lado da fogueira. Já não sentia mais minha carne e ocupava o espaço entre a correnteza da água do rio e a pedra quente do meio-dia.  Neste espaço exíguo de ser, fui cortada pela natureza que se desdobrava em luz, em elemental, em onda. Assim, no instante em que me recobri com a luz verde de um jacarandá, capturei a inteireza do sorriso dele, desdobrando a minha experiência presente em passado, através da sua lembrança, e em algo que ainda está por vir, através da interrogação: o que serei eu, depois de não-carne que se encontra com ele, pedaço-sorriso? Lançada em intimidade profunda com a leveza do seu sorriso, deixei-me atravessar por este impalpável que ali, na beira do rio, me fazia companhia.

          O tempo já não contava, pois não era mais medido e quantificado. Ele era o tempo da minha experiência com o seu sorriso lindo, mostrando dentes perfeitos e lábios sedutores. Meus sentidos se abriram e, como em mágica, minha visão tornou-se capaz de captar o inaudito e meu olfato foi dotado de habilidade para recolher o cheiro dos amores secretos. Fui invadida por ondas de amor carregadas por ventos fortes que, a cada lufada, faziam correr em mim partes da nossa história, já misturadas com o som da correnteza, já imiscuídas no que deixamos de ser.  Meu presente se tornou recipiente animado, conjunto de inúmeras forças que me faziam tocar o interstício de nós mesmos. Não apenas já não era eu, mas também já não era ele. Éramos nós que naquele instante se fez de maneira infinita e audaz, pois desse encontro entre não-eu e não-ele, surgiu um nós profundo, amoroso, sem amarras.

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          Ao ser percorrida por afeto tão forte, que abriu meus poros para o novo que estava ali em potência, percebi que abrigava os pedaços dele. Ele está em mim e me fez outremim, quando já não sou, mas estou em conexão com o que é dele e me afeta, desmanchando meu rosto. Já não posso mais questionar “eu ainda o amo? Ele está pensando na gente agora? Será que fiz bem em terminar com ele? Não poderíamos ter dado certo?”, pois não há certeza possível quando o encontro dos corpos não é promessa de nada, mas a passagem para a criação de algo novo dentro de nós mesmos.

         Quando vou à cachoeira, ele está dentro-fora de mim, quando o meu cabelo brilha, pode ser ele entrelaçando os dedos ali, como gostava de fazer. Hoje sou eu, não-eu, ele, parte dele, nós, eu nele, ele em mim e a superfície onde tudo isso se encontra e se refaz. Sou também a força de querer que, aquilo que me recorta, me desdobre em outra que olhe o mundo com olhos de criança e sorriso largo. Hoje amanheço o amor das incongruências.

 

foto Helen*Helen é vento inquieto, psicóloga freudiana por formação e nômade por profissão. Trabalha no Itamaraty, já morou em vários países e por estar em constante contato com outras culturas, todo dia desaprende um pouco mais. Tem por hobby unir em uma mesma sentença as coisas sãs e seus desvarios e está sempre atenta ao que pulsa para além do cotidiano desgastado. (na fotinha, dando as caras no Templo de Baco)

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