O papa, o aborto e a decisão das mulheres

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Semana passada o mundo observou atento a decisão do Papa Francisco de conceder o perdão a católicas que se arrependessem de ter feito um aborto. Imagino o alívio de milhares de mulheres ao poder se perceber não mais como uma excomungada. Trata-se, certamente, de um bálsamo para a saúde psicológica de mulheres que se sentiam culpadas por terem abortado. E estar em situação de menor tormenta emocional claro que é melhor que viver atormentada pela culpa.

Agora, a questão é: de onde vem toda essa culpa? No meu entendimento vem de uma teologia que não aborda a questão do aborto como tema passível de uma decisão pautada em uma reflexão ética. A culpa é alimentada por uma teologia que não ouve, ainda, as mulheres. Uma teologia feita por homens e a partir (ainda) dos privilégios deles.

Uma outra teologia já existe e está, por exemplo, nas publicações de pensadoras teólogas feministas como as “Católicas pelo Direito de Decidir” que já tem laudas e laudas de reflexão sobre aborto e religião. Mas a teologia dessas mulheres não é ouvida, é deslegitimizada e marginalizada.

Já existe reflexão católica sobre a possibilidade de abortar sem culpa. Um dia essa reflexão será acessível a todas as mulheres católicas para que elas não precisem mais de um homem lhes concedendo o perdão. Poque um homem CONCEDENDO perdão a uma mulher, ainda que seja um Papa amoroso em tantos aspectos como parece ser o Papa Francisco, ainda soa para mim como a princesa Isabel “libertando” os/ negros/as.

Sonho com o dia em que as mulheres se libertem da culpa pelas suas próprias consciências, que a decisão de ser ou não ser mãe para uma católica seja válida pelo simples fato de que foi a decisão que sua consciência melhor construiu a partir de uma reflexão tranquila e serena e em nada incompatível com sua fé, coisa que é impossível de ser obtida numa situação de clandestinidade.

Que um dia uma mulher possa também ser, caso ela queira, a líder da Igreja Católica e que essa mulher abrace todas as que decidiram abortar e lhes diga: confio e apoio a decisão de vocês porque sei que todas vocês tem elementos teológicos para decidir da melhor forma possível. Porque, como Maria, vocês tem o direito a serem consultadas. Porque sou mulher como vocês e sei o que é estar diante de uma decisão tão difícil. E acima de tudo porque, como mulher, feminista e militante, eu sei como é pesado o jugo do machismo. Coisa que nenhum homem sabe realmente… Nem o Papa Francisco, nem nenhum outro.

Sonho que uma mulher, que todas as mulheres, possamos reconhecer que a Igreja é uma instituição que, com sua doutrina, força e influência, ajuda a manter o status quo, invisibiliza o nosso sofrimento e favorece a reprodução de discursos de opressão e exclusão. Que chegue o dia em que as mulheres não sejam perdoadas pela Igreja, mas que a Igreja peça perdão às mulheres.

Até que chegue esse dia vamos vivendo de vitórias parciais, de possibilidades históricas que não vieram simplesmente da generosidade individual de ninguém mas de toda uma luta encampada pelas mulheres, com destaque para as feministas, que plantaram e plantam sementes as quais as vezes germinam de formas ainda insuficientes mas que geram alguma saciedade de nossa fome de liberdade, saúde e felicidade.

Que nossas decisões um dia sejam realmente nossas!

Leia Mais: A Igreja já tolerou o aborto

Coalizão Nacional de Freiras Norte-Americanas responde ao Papa


10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro
se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

 

 

 

 

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7 ideias sobre “O papa, o aborto e a decisão das mulheres

  1. Katiuscia
    Muito pertinentes suas reflexões, principalmente para nós que há anos lutamos pela discriminalização do aborto.
    As culpas que muitas mulheres católicas carregam pode ser amenizadas pelas palavras consolodoras e amorosas do Papa Francisco, que parece vem contribuindo para amenisar os dogmas que mantêm as mulheres subjugadas.
    Não se pode perder de vista neste debate os nossos direitos de decidir quando queremos ser mãe, não se pode deixar de discutir a autonomia das mulheres em decidir o que fazer em uma situação que em geral elas decidem sozinhas. O aborto precisa sair dos espaços de silêncio e romper com a hipocrisia dos católicos e evangélicos que satanizam as mulheres.

    • Sim, Mary, é verdade que houve forte impacto na cabeça e na consciência das mulheres católicas depois da fala do Papa Francisco, mas ainda precisamos mesmo lutar muito para que essa teologia seja realmente crítica e leve em conta, como você disse, os nossos direitos de decidir sobre a maternidade.

    • Que bom que você gostou da abordagem, Helen. Espero ter contribuído para levantar reflexões acerca dos rumos da Igreja Católica acerca da vida das mulheres.

  2. Parabéns minha querida Kati! Podemos perceber no seu texto como decisões dogmáticas são políticas e construções de seu próprio tempo, por isso é sempre imprescindível um olhar crítico. Valeu nega!!!

    • Isso mesmo, Leide Ana. É uma questão política que merece ser debatida e problematizada à luz de um olhar que leve em conta os Direitos Humanos das Mulheres.

  3. Kati, bela reflexão. Que possamos construir nossa espiritualidade à altura de nossas próprias questões como mulheres sem cair na armadilha perversa da culpa imposta pelo machismo. Beijao

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