Pátria Educadora

Por Vinícius Abdala*, Biscate Convidado

Nasci e fui criado em Itabira, uma cidade do interior de Minas Gerais que também tem Carlos Drummond de Andrade como um dos meus conterrâneos. Cidades do interior sempre carregam consigo o inevitável conservadorismo e tradicionalismo de sempre, principalmente se tratando do estado de Minas Gerais e sua cultura coronelista.

Parte da minha educação formal básica foi feita em uma escola particular católica. Não consegui me adaptar às regras impostas pela instituição e, com isso, meus pais logo trataram de me colocar em uma escola de ensino público estadual. Sempre muito hiperativo e, desde essa época, sendo medicado para conter a hiperatividade, penso que nunca acreditaram muito que eu poderia trazer resultados e transformações significativas a mim e ao meio que vivo devido as minhas limitações em relação à atenção e concentração.

Ainda que uma fosse uma escola estadual, o nível sócio-econômico dos alunos não era condizente à realidade das escolas públicas do país: a Escola Estadual Major Lage sempre fora referência no ensino fundamental do município, tendo filhos de advogados, médicos e engenheiros ocupando os espaços de quem não tinha condições de pagar por um ensino de qualidade. Eu mesmo fui um desses: por influência da minha mãe – Chefe de Seção na Prefeitura Municipal, consegui uma vaga.

Ainda que fosse uma escola tida como “bem frequentada” e, portanto, de pessoas com maior acesso a informação e educação, as questões de gênero e sexualidade não eram (são) discutidas nesse âmbito educacional. Com isso, era (é) presumível que a homofobia fosse (seja) naturalizada inclusive pelo corpo docente desse espaço, como acredito ser “natural” em todas as outras escolas do país também.

Constantemente, eu era ridicularizado pelos amigos de classe, que não me agrediam somente verbalmente, mas, muitas das vezes, também fisicamente. Das poucas vezes que recorri aos professores, ouvi mais de uma vez da boca deles que “eu deveria entrar na brincadeira”, que tudo não passava de “piadas”.

Acredito que compartilho aqui a realidade de muitos: venho de uma família que dizia que, se eu sofresse qualquer tipo de agressão fora de casa e não revidasse na mesma moeda, apanharia o dobro em casa. Eu, que sempre troquei as bolas e carrinhos por bonecxs e video-games tinha pavor em sequer pensar na possibilidade de agredir ao próximo. O medo de apanhar fora e dentro de casa sempre me acompanhou, principalmente do meu pai, que me bateu poucas vezes, mas que, quando aconteceram, deixaram marcas não só no corpo, mas na alma.

Com isso, nunca denunciei aos meus pais ou aos professores as constantes agressões que meus colegas de escola me faziam passar. Dos xingamentos aos empurrões, rasteiras e chutes (quem lembra do tratado “até amanhã? risos), preferia a humilhação dos amigos de sala do que ver a cara de desgosto do meu pai por ver seu único filho homem apanhando de outros meninos da mesma idade sem revidar da mesma forma.

Os anos se passaram e as agressões foram se naturalizando. Constantemente, prestava favores aos meninos em troca de momentos de paz, onde podia ler as revistas das Witch sem ser incomodado. O tempo foi passando, as crianças foram crescendo e a puberdade foi se aproximando…

Viado e bicha sempre fizeram parte dos vocativos usados para se referirem a mim, fosse na minha presença ou não. As palavras quase perderam seu sentido de adjetivos e se tornaram substantivos próprios: VV (Vinícius Viado) ou Abdabicha foram alguns dos apelidos que ouvi durante grande parte da minha vida naquela época.

Naquele tempo, próximo aos 11-12 anos, não tinha ainda a noção exata do que queriam dizer quando me acusavam (como se fosse uma culpa a ser carregada) de ser bicha. Sabia que era algo muito ruim; que meus pais repudiavam, que a escola preferia se cegar a enxergar essa realidade e que os colegas, mesmo os próximos, usavam como dispositivo de humilhação para me expôr, condenar e justificar as constantes agressões. Os apelidos arrancavam gargalhadas e, mesmo os que se mostravam solidários a mim não continham o riso.

Certa vez, estava sozinho no banheiro masculino – banheiro este que possuía diferentes cabines individuais para fazer nossas necessidades. Dois alunos de séries acima da minha resolveram me seguir e entrar logo depois de mim.

Eu não entendia que o “ser bicha” implicava também em sentir atração por pessoas do mesmo gênero. Na época, acreditava que os insultos aconteciam porque, de fato, o mundo masculino e seus pertencentes não me contemplavam. Eu tinha 11 anos.

Sei o nome dos dois alunos que me trancaram em uma das cabines, colocaram o pinto pra fora e “pediram gentilmente” que eu colocasse a boca no genital deles. Em choque, olhei para os dois e comecei a chorar. Foram dois tapas no ouvido e a ameaça de que, se o que tivesse acabado de acontecer se tornasse público, eu apanharia ao final da aula até que não conseguisse mais andar.

Terminei não tendo que posicionar minha boca nos genitais que estavam a centímetros de distância do meu rosto; contudo, desejei que não tivesse que voltar a estudar nunca mais. Mudei de sala, passei a andar em grupo (formado principalmente por meninas e outros meninos gays) e tentei me proteger como podia.

Coincidência ou não, hoje, um desses agressores me adicionou no facebook. Acredito mesmo que na cabeça dele enquanto homem hétero, o que ele fez não passou de uma piada de mau gosto que deve ser perdoada devido a pouca idade e imaturidade. Se o mesmo acontecesse hoje, provavelmente seria mais um homem no mundo sem pinto pra contar história.

Quero dizer com isso tudo que as agressões sempre partiram de todos os lados e nunca houve a quem recorrer quando as situações ficavam quase insuportáveis. Se na educação familiar a repressão pela sua orientação sexual é forte – motivada por valores morais e religiosos na maioria das vezes, a escola não se mostra muito diferente. Um ambiente que deveria prezar pela transformação, emancipação, construção de conhecimento e noções como respeito à diversidade acaba servindo também como mecanismo de manutenção do preconceito e descriminação.

Existo e resisto para também denunciar, em nome dos milhares que também já passaram por situações como a minha e, por falta de amparo, idade e/ou noção de mundo e realidade, se silenciaram diante de tamanhas agressões que se naturalizam por falta de punições e repressões.

Aos que resistiram e ainda resistem para (sobre)viver nas instituições de ensino que são, na maioria das vezes, classista, machista, racista e homofóbico e transfóbico: vocês não estão sozinhos. Que a luta pela inclusão de pautas como discussão da diversidade sexual, religiosa, de gênero e étnico-racial dentro do meio acadêmico se torne um dia uma realidade palpável.

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

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