Uma situação intolerável

Eu odiava esse corpo que procurava me ditar sua vontade, que não era a minha. Era igualmente deprimente ter que agir sem nenhuma informação, sem auxílio médico, reduzida às receitas de bruxas, aos remédios das comadres, alguns dos quais datando da Antiguidade: o aborto era o ato mais secreto, porém o mais disseminado da história das mulheres.
(Benoîte Groult, Minha Fuga)

O relato de Benoîte Groult se passa na França do pós-guerra, quando o aborto ainda era proibido por lá. Mas bem poderia ser no Brasil de hoje. Na França, comemoram-se este ano 40 anos de aborto legal, como conta esse texto da professora Lena Lavinas:

Dentre as maiores conquistas do pós-68 na França, sem dúvida o direito ao aborto livre e seguro foi das mais extraordinárias e incontestes. Contemplou a todas as mulheres que puderam, assim, romper a solidão e a clandestinidade, o medo e a vergonha, para expressar seu direito individual e inalienável de escolha.

As duas citações deixam claro o componente de direito envolvido na questão: como dizer, de verdade, que as mulheres são iguais aos homens, sem anticoncepcionais, sem a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez e sem estruturas de apoio à criação das crianças (creches e escolas integrais e públicas)? Direito ao aborto seguro, direito a creches e escolas públicas para as crianças: parecem antitéticos, e no entanto são duas pontas do mesmo quadro. Duas pontas fundamentais para garantir às mulheres o mesmo direito que têm os homens. E, portanto, fundamentais para a estruturação de uma democracia substantiva.

Enquanto na França se comemoram os 40 anos da Lei Veil, no Brasil, a situação é cada vez mais grave: mulheres continuam morrendo todo dia por abortos malfeitos. E, se sobreviverem, são criminalizadas. Não há números confiáveis, mas uma certeza: são muitas. São demais. Mortes desnecessárias. Mortes por descaso. Por indiferença. Pela hipocrisia que salva supostas “vidas” abstratas e, concretamente, mata gente. Porque o Estado supostamente laico não leva sua laicidade até a defesa da vida das mulheres. Porque a presidenta, a nossa primeira presidenta mulher, recuou o quanto pôde na pauta “sensível”. Porque existe (ainda) uma Secretaria de Políticas para a Mulher cuja titular defendia, como cidadã, o direito das mulheres ao aborto , mas não consegue fazê-lo como representante do governo.

Esse estado das coisas mantém a mulher no Brasil como cidadã de segunda categoria, não importa o que digam. E, evidentemente, a mulher pobre é a que sofre mais com essa situação, já que para quem tem dinheiro acaba sempre existindo algum “jeitinho”. É lamentável que, tanto tempo depois do final da ditadura, a gente continue vivendo a situação que tão bem descreve Benôite Groult: a das mulheres aprisionadas em seus próprios corpos. Reféns dos corpos e dos desejos. Correndo risco, todo dia.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *