Vamos deixar as pessoas em paz

Texto de Iara Paiva
com participação da bisca Luciana

Hoje na hora do almoço tava pensando em como alimentação é algo que rende assunto. Porque a gente pode pensar do ponto de vista da cultura, da história, da nutrição, da política de comércio internacional, da economia. É fascinante. Mas tem um ponto em que eu me recuso a entrar na conversa: quando passamos pra gordofobia.

Gordofobia, de forma simples, é o preconceito contra pessoas gordas. É julgar e rotular personalidade, comportamentos, valores a partir de um aspecto físico: ser gorda. Assim, nossa sociedade gordofóbica costuma relacionar às pessoas gordas coisas como preguiça, desleixo, má saúde, etc. A gordofobia faz com que as pessoas gordas sejam representadas, de maneira geral, como desagradáveis, repulsivas ou inconvenientes. A pressão que fazemos sobre as pessoas gordas, como sociedade, geralmente promove perda de autoestima, ódio internalizado, sofrimento psíquico, desconforto, inadequação social, etc. Gordofobia é a naturalização discursiva e material (porque tanto acontece quando dizemos que pessoas magras são mais bonitas como quando produzimos meios de transporte cujas poltronas não acolhem todo tipo de corpo com conforto) de um “modelo cultural que privilegia pessoas magras e marginaliza gordas”.

Podemos pegar o exemplo dos fumantes… por mais que ninguém seja obrigado a fumar – como é obrigado a se alimentar – por mais que fumar possa causar diversas doenças, por mais que deixar de fumar seja socialmente mais simples do que fazer regime, o fumante não é assediado como a pessoa gorda. Ainda bem, nem tem que ser! A gente discute propaganda, indústria do tabaco. Discute os limites alheios por conta da fumaça e tal. Mas eu não vejo ninguém ridicularizando fumante, sabe? Tratando como alguém inferior ou digno de pena.

Mas, ain, é por causa da saúde, sei que lá a saúde da pessoa gorda, muitos anos de vida”… Mas saúde não é nem precisa ser um referência individual universal. Nem o desejo de viver muito tempo. Tem gente que quer e se preocupa, tem gente que não, ué. Ser saudável (o que quer que isso seja, porque é outra discussão bem longa) é um valor e uma referência individual que não podemos imputar ao outro e quando o fazemos é sempre uma violência.  Como disse a Jarid: “ é também papel do feminismo combater esse discurso de ódio e má fé disfarçado de preocupação com o bem estar; é necessário lutar contra a imposição de padrões, seja de aparência, roupas ou comportamentos. Cuidar de si mesma e amar outras pessoas significa não constrangê-las e envergonhá-las. Ninguém jamais deveria impoôr aà outra pessoa, não importa quem seja, nenhum tipo de roupa, alimentação ou comportamento.”

Então me irrita essa desculpa cínica do “é pela saúde!”. Não é, nunca foi. Vamos assumir que a gente não gosta de gordo? Que foi ensinado socialmente, mesmo que não tenha sido dito explicitamente, que gordo é inferior? Que mesmo pessoas gordas sofrem com gordofobia internalizada? Que eu tô escrevendo textão, mas olho no espelho e acho meu bracinho de biscoitera roliço? Que até pessoas magras podem sofrer por se acharem “gordas demais” para uma sociedade cujos padrões são cada vez mais magros e se afastam cada vez mais de uma suposta “busca de saúde”?

Bora ser honesto. Depois a gente foca o debate na indústria alimentícia, na propaganda, na política, no discurso médico, na educação, no caralho a quatro. Mas primeiro vamos deixar as pessoas em paz.

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Uma ideia sobre “Vamos deixar as pessoas em paz

  1. Muito bom o texto, mas o que eu mais vejo como estereotipo de pessoas gordas é esse negocio do hormonio da felicidade ser produzido atravez da comida, logo pessoas gordas sao retratadas como tao felizes a ponto de se tornarem ridiculas que tem aquela risada bem alta, assedios fiscos/psicologicos sexuais sao vistos como “elogios” para gordas ja que elas “são feias e ninguém quer pegar” também tem a “obrigaçao” de gostar de alguem que se interesse por elas porque “com essa aparencia nao da pra ficar ‘escolhendo’ muito”

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