A redação do ENEM e a neutralidade ‘nkali’

Um vídeo que sempre me inspira é o da apresentação para o TEDx da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, sobre múltiplas histórias. Ali, pelo minuto 9′:42″, ela diz o seguinte:

“É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo. E a palavra é Nkali. É um substantivo que livremente traduzido é ‘ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômicos e políticos, historias também são definidas pelo principio do nkali. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.”

E aí, fiquei pensando na grita relacionada ao tema proposto na redação do ENEM deste ano – sobre as razões da persistência da violência contra mulher – e o questionamento se essa revisão não acabaria calcada num viés ideológico. Realmente, fiquei mesmo intrigada sobre a cobrança dessa suposta ~ neutralidade ~ na correção. De que neutralidade estamos falando, afinal? Da neutralidade hegemônica, à qual estamos submetidos, inclusive e especialmente, na educação e nos processos de aprendizagem formal de história, geografia, língua etc.? Em que lugar de fala esta neutralidade mora?

Não imagino como essa redação poderia ser escrita sem pautar-se em alguma perspectiva ideológica, uma vez que desde o seu cabeçalho já se anunciava que textos que ferissem os direitos humanos não seriam considerados. O que nos ensinam nos livros didáticos passa pelo apagamento da mulher na história; a maneira como aprendemos sobre a nossa colonização; sobre o tráfico de pessoas escravizadas; sobre os indígenas; até a língua… tudo isso não está submetido a um viés ideológico? Não são as pessoas que narram os eventos? E quem detem o poder não tem a primazia na narrativa?

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Ora, nós também queremos ser ouvidas!

A narrativa tradicional de nossa sociedade é normatizada pelo viés patriarcal, branco, cisgênero e heternormativo, no qual o espaço para a participação mais efetiva de minorias, e nesse grupo nos encontramos, ainda é limitado. Neste sentido, a prova do ENEM tem minimamente o mérito de obrigar os estudantes a pensarem sobre o tema da violência contra a mulher. Sem duvida que virão muitas respostas fora do contexto ou até ofensivas. Mas o fato é que pela primeira vez um conjunto tão grande de estudantes teve de se debruçar sobre um tema que não tem sido objeto profundo de discussões em sala de aula e, provavelmente, em suas casas.

Para reagir a redação, muitas pessoas, homens em sua maioria, passaram a compartilhar um meme que traz dados mostrando que eles são as maiores vitimas de violência, relativizando, assim, aquela vivida pelas mulheres e tentando retirar a importância dessa reflexão. O subtexto é que as mulheres deveriam até meio que estar felizes por não sofrerem na mesma medida que os homens. A desonestidade intelectual deste argumento salta aos olhos na medida em que geralmente a violência contra a mulher atende a um machismo tão profundamente arraigado na sociedade, que nos impede de ver o óbvio.

Não podemos perder de vista que as mulheres fazem parte de uma minoria que sofre violência e opressão justamente por serem mulheres. Ainda que encontremos depoimentos de assédio e estupro de homens, são as mulheres as maiores vítimas desse tipo de violência, por exemplo.

Será interessante ver os resultados de correção da redação. Especialmente para entender a visão das mulheres em comparação com a perspectiva masculina sobre o tema. Possivelmente, veremos muitos relatos pessoais, seja sobre violência sofrida pelas próprias estudantes seja por familiares. De certa forma, a redação da ENEM pode transformar-se num grande estudo sobre a percepção dos jovens, maioria esmagadora no exame, em um assunto tão urgente. Só isso já justificaria o tema da redação.

Depois dessa redação e do incômodo (pra dizer o mínimo) causado pela questão sobre a filósofa feminista Simone de Beauvoir e algumas outras perguntas que nos entusiasmaram bastante, para os próximos anos esperamos temas igualmente fundamentais, como o genocídio da juventude negra ou das comunidades originais (indígenas, quilombolas), por exemplo.

A cultura do ranking escolar, cada vez mais questionada, pode pelo menos prestar este serviço à sociedade. Afinal, mesmo o ENEM, com todas as suas críticas e idiossincrasias, também é um espaço de disputa. Quem sabe, assim, vamos ampliando mais ainda nosso repertório de múltiplas histórias, em todos os cantos onde isso seja possível.

fabiokacbral

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